Paciente: Sexo feminino. Vinte anos.
Estresse pós-traumático. Alucinações visuais.
Avistamentos de um vulto, o "homem grande".
Cartas de tarô, de origem desconhecida.
Muda.
Mora só.
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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Relatos de Kassandra - IV - última diária


As impressões da intérprete de Kassandra, Renata Stein, durante as filmagens do curta. Os outros relatos podem ser lidos aqui, aqui e aqui.


Sangue, mais sangue, muito sangue e sangue. Se eu escrevesse só isso para relatar a quarta diária acredito que seria suficiente. Foi um dos dias mais grudentos que já vivi – nem o verão de janeiro me deixa assim. O sangue feito pela produção era algo como açúcar em meleca que grudava no cabelo, na roupa, no corpo (acima)... Ah, fabuloso. 

A quarta diária foi praticamente dedicada às cenas do pesadelo que infelizmente foi mudada. Ou felizmente, se eu fosse pensar na maior quantidade de sangue que seria usada para a antiga cena. Gravamos algumas partes de outras cenas para melhorar o que já tinha sido feito e dar um ritmo melhor, e nos dedicamos às cenas do pesadelo. Dessa vez o set estava bem mais vazio, já que apenas seriam as cenas de Kassandra. Apesar de algumas pessoas da produção terem quebrado alguns galhos como figurantes, não é, Chico e Marina*? Ainda bem que tinha a boneca Blá-Blá para fazer companhia para Kassandra, já que ela estava sem terapeuta, sem vizinho e sem Homem Grande. 

Falando em Kassandra especificamente, como eu estava aflita por não saber se seria capaz de saber ser Kassandra de novo, tanto tempo após as primeiras diárias! Acho que foi nesse dia mesmo que vi a primeira montagem das cenas já feitas do curta metragem. Confesso que eu achei que poderia estar muito melhor. A preocupação de voltar atuando como Kassandra que já existia ficou pior. Mas, apesar de repetir muitas vezes as cenas, pois o “ator sangue” nem sempre acertava sua marca, acredito que saiu tudo muito bem. 

Estava um dia bonito, foi um dia divertido, um ótimo almoço com maravilhosas sobremesas, poder rever o pessoal . . .  Para quê falar das gravações, não é mesmo, Renata? A comida estava boa e é o que importa. HAHAHAHA. Brincadeiras a parte, mas realmente o dia estava muito bom. Acredito que conseguimos fazer das novas ideias para o pesadelo um bom trabalho. Muito sangue, olhares macabros, participações especiais do Chico, da Marina como figurantes, da adaga, da Blá-blá. 

Peço desculpas se não relatei mais detalhes da diária. Esse dia esqueci de escrever no meu caderninho de nota e minha memória não esta ajudando com tudo. E hoje, dia 24 de agosto, que é quando eu escrevo, quase 8 meses depois das primeiras gravações de Kassandra, percebo o quanto foi bom e sinto saudades dos dias trancada dentro de um apartamento gravando o curta. E o quanto estou desejando que a finalização do curta seja feita logo para eu poder assistir.
 
Abraço. 
 
 
* Chico Pereira e Marina Cardozo, respectivamente o compositor da trilha e a segunda assistente de direção.

domingo, 29 de julho de 2012

Um carioca em Kassandra


Victor Hugo Fiuza viveu uma experiência curiosa em Kassandra. Estudante de cinema na PUC-RJ e carioca da gema, foi convidado pelo diretor Ulisses da Motta Costa para vir ao Rio Grande do Sul ser assistente de direção. Ambos se conheceram no Festival de Gramado em 2009, quando fizeram parte do Júri Popular.

Além de ter trabalhado como primeiro assistente de direção durante as filmagens, Victor também assumiu a direção de fotografia adicional na terceira diária, devido a compromissos profissionais de Pablo Chasseraux -- o que só aumentou a resposabilidade e a importância dele dentro da equipe.

A seguir, as impressões do próprio Victor nos dias em que passou filmando em terras gaúchas. 


A Experiência de fazer Kassandra


Quando meu avião decolou de Porto Alegre, sentido Rio de Janeiro, a minha sensação era de deixar um território especialmente familiar para mim. Da janela, eu não via só uma paisagem que se afastava, perdendo sua definição; via elementos tão aleatórios quanto o chimarrão, uma cerveja Polar e a expressão “Bah”, agora tão próximos de mim, se afastando. Via lugares e principalmente, pessoas. Esse é um dos estranhos poderes do cinema: te permitir entrar em um lugar sem nenhuma fronteira do tempo (e sua duração), com uma intensidade muitas vezes fora de controle. O cinema é uma fábrica de laços. 

Sou do tipo de pessoa que acredita que uma câmera cinematográfica capta muito mais que aquilo que é encenado diante dela. Ela é capaz de captar seu entorno; a atmosfera que a envolve. Não creio que apenas os atores construam cada plano do filme; acho que dentro de cada imagem, estão as aspirações e sentimentos de toda uma equipe de pessoas. Nesse sentido, estou quase convicto em dizer que Kassandra será um filme invariavelmente especial, posto que o que se conseguiu construir em termos de relações humanas em direção e em torno do filme, foi de uma beleza realmente artística. 

Tudo isso não se trata apenas de uma competência técnica dos membros da equipe e do brilhante elenco, mas principalmente da capacidade de doação e de relacionamento interpessoal que envolveu o filme. Se ao descobrir que teríamos um número acima da média de planos por dia (geralmente são 15; fizemos mais que o dobro disso diariamente) e que teria bons motivos pra me preocupar (já que isso tornaria a filmagem muito mais difícil e complexa, além de arriscada, e meu trabalho envolve diretamente a gerência dessas questões no set), foi somente essa condição de equipe e elenco que permitiu a concretização de Kassandra de uma maneira profundamente eficaz. Isso não é tão comum, seja em curtas, longas ou na TV. 



Mérito do poder invejável de decisão e controle do diretor Ulisses da Motta Costa, que sempre soube como conduzir não só aquilo que deveria se apresentar diante da câmera (ou seja, a encenação do filme), mas também o grupo que estava por detrás dela; a agilidade nunca comprometedora da fotografia de Pablo Chasserraux e sua equipe, sempre acalcando resultados surpreendentes; Ramona Barcellos e Roberto Coutinho (produção), por simplesmente terem cuidado de tudo e de todos nós; Ana Gusson, a diretora de arte, que torna impossível um set não ser agradável – além de estar, mesmo com todos os cenários prontos, sempre por perto; à Marina Cardozo, muito mais que uma continuísta; ao elenco, nunca menos que preparado e excepcional (Kassandra conta realmente com grandes atores – e eu gostaria de fazer uma menção especial à Renata Stein, a Kassandra do título, uma atriz jovem assustadoramente madura e talentosa); em suma, graças a todos. 

Acho que as pessoas podem esperar de Kassandra um filme que, além de cumprir seus méritos cinematográficos por si só, também fale sobre um tipo de cinema importante de ser feito e que deve ser valorizado, inclusive remetendo, regionalismos à parte, ao próprio cinema gaúcho (seja o de outrora, o do agora ou o do porvir). 

Da minha parte, fica uma certa saudade e uma vontade de novas produções no Rio Grande do Sul. Principalmente se for para trabalhar com pessoas como essas que fizeram e fazem Kassandra

Obrigado. 

Victor Hugo Fiuza (primeiro assistente de direção)

PS: Gostaria de agradecer especialmente ao eletricista Jô, pela ajuda especial que ele deu a mim no nosso terceiro dia de filmagens.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

As imagens de Kassandra - 3

Enquanto as novidades não chegam, revelamos mais algumas fotos para vocês. Esperamos que gostem!

Fotos por Daniel Coutinho. Você pode ver a primeira parte aqui e a segunda parte aqui.

You can also see the english version of this post! 

 
Renata Stein e a câmera, uma relação de amor
Leandro Lefa, o vizinho asqueroso
Pablo Chasseraux (diretor de fotografia) e Ulisses Costa (diretor)
O "filme dentro do filme"
"Corta. Mais sangue"
 

terça-feira, 17 de abril de 2012

Trivia de Kassandra: mudanças, improvisos e gambiarras

Alguém poderia dizer que cinema é a arte de planejar um mundo ideal no roteiro, fazê-lo como puder na filmagem e tentar salvar tudo na montagem. Muitos detalhes do que é planejado originalmente acabam sendo modificados em cima da hora por causa de algum problema qualquer. É nessa hora que a criatividade da equipe é testada.

Não raro, as novas ideias acabam melhores do que as originais. Confiram algumas mudanças que aconteceram em Kassandra nas suas primeiras filmagens, em janeiro. E impeça que mais delas aconteçam nos ajudando no nosso financiamento coletivo! É fácil e ainda tem brindes!


- A dublê de Kassandra: Renata Stein já tinha sido liberada e não estava mais no set, enquanto a equipe filmava planos de detalhes de objetos e cenário. Até alguém lembrar que num plano de uma porta se fechando, Kassandra precisaria aparecer ao fundo, fora de foco. Sem a atriz no set, o jeito foi a continuísta Marina Cardozo (acima) colocar o figurino da personagem, tirar os sapatos e sair correndo em frente à câmera.

- O Achocolatado de Kassandra: Na primeira versão da história de Kassandra, a personagem só se alimentava de miojo. O roteirista Roger Monteiro (que tem implicância com miojo) substituiu a massa por garrafas de achocolatado -- que precisavam ser de vidro. O mais próximo disso que a diretora de arte Ana Gusson conseguiu foram garrafas de molho de tomate -- devidamente esvaziadas, lavadas e depois sujas com gotas de achocolatado. Ah, sim: o molho foi usando para alimentar a equipe. Não é à toa que um dos almoços foi cachorro-quente...

- Luzes e sombras: Numa determinada cena, uma luminária precisava projetar sombras no cenário. Como o abajur feito por Ana Gusson não tinha luz necessária para tanto, o eletricista Jô rapidamente recortou algumas estrelas em pedaços de papelão, no mesmo padrão da luminária. Os papelões formavam um círculo que era girado manualmente em torno de um holofote, projetando as sombras com perfeição na cena.

- Passarinhos em fúria: Havia dois passarinhos em cena, um manon preto e um periquito albino. No roteiro era previsto que Kassandra seguraria um deles na mão. Como o periquito era mais agitado, a cena seria feita com o manon. Entretanto, quando Renata Stein pegou o bichinho, ele a bicou e saiu voando pela locação, sendo recapturado de maneira relativamente fácil. O diretor Ulisses Costa tentou fazer o passarinho se acalmar, segurando-o por algum tempo, mas a ave continuava bicando furiosamente. A ideia foi abandonada e, no lugar do pássaro, Kassandra iria brincar com um bonequinho de Mozart -- uma ideia que funcionou tão bem que foi reprisada no vídeo do crowdfunding de Kassandra.

- Comprimidos de Tic-tac: Os remédios que Kassandra toma eram simples Tic-tacs (sabor menta). Eles aparecem em apenas duas cenas: numa, a personagem engole um; noutra, os comprimidos estão espalhados pelo chão. Algumas caixas de Tic-tac foram compradas e deixadas na sala de apoio. Contudo, elenco e equipe roubavam alguns sempre que podiam. Resultado: quando se foi rodar a segunda cena, as pastilhas tinham acabado. A solução foi pegar uma cartela de Dramin e usar comprimidos de verdade no cenário.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Preparando o elenco de Kassandra

Texto escrito pelo diretor Ulisses da Motta Costa sobre a preparação dos atores em Kassandra.

Ajude Kassandra a virar realidade! Participe e divulgue o nosso crowdfunding!!! 

A preparação de elenco virou coisa seríssima no Brasil. Há quem discorde ou concorde, há quem acha essencial, há quem defenda que isso tira a autonomia do diretor. Mas o certo é que ajudou a moldar a imagem atual do cinema nacional: atuações ao mesmo tempo naturais e viscerais.

Como Kassandra é um projeto pequeno, eu mesmo resolvi fazer junto com os atores um esboço de preparação de elenco (não é de longe a minha especialidade). O trabalho foi dividido basicamente em três partes (com os vídeos publicados anteriormente em outros posts ilustrando):


A - Ler e debater o roteiro:

Fazer leituras de roteiro e debater com os atores quais as impressões e compreensões que eles tiveram acerca do material é algo que eu sempre faço. Gosto de saber como eles enxergam as motivações e as ações do personagens (acima, uma leitura com Renata Stein, Maico Silveira e Suzana Witt).

Isso, não raro, muda detalhes do roteiro: não só as falas (descobrimos se realmente funcionam durante as leituras), como também características dos personagens. Por exemplo: no roteiro, havia menção de que o pulso de Kassandra tinha cicatrizes de tentativa de suicídio. Para Renata Stein, contudo, se a personagem tivesse tentado se matar, ela certamente conseguiria. No momento em que ela trouxe esta interpretação, pareceu fazer todo o sentido ela não ter as cicatrizes. Por conta da leitura que a atriz teve da sua personagem, um dos seus traços físicos foi modificado. 

A maneira como os atores captam o subtexto do roteiro é essencial também para saber o quanto que ele funciona. E é interessante ver como cada artista procura seu foco: na reunião vista no vídeo abaixo, as preocupações de Maico Silveira e de Luis Franke são diferentes: o primeiro quer entender melhor a protagonista, enquanto o segundo procura uma resposta mais clara para os elementos subjetivos da trama:


B - Preparação de atores

Nunca usei antes uma preparação de atores que envolvesse exercícios e trabalhos específicos para criar sensações e sentimentos nos atores. Mas em Kassandra achei que poderíamos fazer isso de forma intensa, especialmente para preparar Renata Stein para as várias camadas da personagem. No vídeo abaixo, um exercício de aquecimento em que ela e Maico Silveira não podiam se encostar.

Um dos nossos trabalhos desenvolvia reações ao medo: Renata tinha que ficar deitada num sofá no escuro (os ensaios aconteceram na locação, o que nos ajudou), com o rosto virado em direção ao encosto e as costas desprotegidas. Enquanto isso, eu caminhava lentamente em torno dela. Ela não poderia se mexer ou gritar: apenas mexer duas bolinhas de yin-yang nas mãos quando a tensão ficasse insuportável.

No início, cada estalido do chão de parquê desencadeava o tilintar das bolinhas na mão de Renata. Num dado momento, porém fiquei em silêncio por alguns minutos -- até que a própria ausência de som  fosse mais angustiante do que qualquer ruído.

Um exercício que usamos em vários momentos (inclusive minutos antes de filmar) foi sugerido por Maico: Renata não podia deixar que outra pessoa tocasse nela. Alguém tinha que tentar encostar nela com as mãos, as pernas e mesmo com o corpo. O que começava quase engraçado aos poucos virava uma espiral de desespero, em que a atriz tentava escapar do toque a qualquer preço.

O bom deste exercício é que podíamos mudar a pessoa que tentava tocar Renata (até mesmo eu fui um dos "agressores") conforme a situação -- foi particularmente dramático quando ela fez esta rotina com Leandro Lefa, poucos minutos antes de gravarmos uma cena em que o personagem dele tenta impedir Kassandra de passar por uma escadaria.

Com o mesmo Lefa elaboramos outra atividade: como seu personagem é uma ameaça a Kassandra, achei interessante eles trocarem de papeis e ela tentar subjugá-lo. A "brincadeira" era assim: Leandro ficava sentado no chão e tentava levantar, enquanto Renata impedia-o. Achei o exercício começaria leve, intensificando-se gradualmente. Que nada: ambos já tinham introjetado seus personagens de tal forma que se atracaram quase em luta corporal assim que eu disse "podem começar". 


C - Ensaios

Num certo ponto da pré-produção, os atores já conheciam muito bem o roteiro. Porém, o ensaio de pelo menos algumas das cenas era essencial para que começássemos a ver o ritmo interno delas, como seria a marcação do elenco e mesmo se os enquadramentos funcionariam.

É interessante ver o quanto que o resultado final da cena é diferente do que era no início dos ensaios em termos de atuação. Num primeiro momento, os atores ainda não estão totalmente confortáveis com o personagem. Por isso, abrimos espaço para improvisos e para ideias tolas -- num dos ensaios, pedi para que o elenco atuasse como se Kassandra fosse uma comédia, ao notar que o ritmo tinha se engessado num formato muito truncado. O resultado deu certo: limpou o excesso de reverência e pudemos voltar a algo mais contemplativo e ainda assim mais fluido.

No vídeo abaixo, a mostra de que o improviso funciona: o celular de Renata tocou  durante um ensaio. Ela, porém, não podia sair do personagem -- ou seja, não podia falar. Seu companheiro de elenco acompanhou o espírito e manteve-se no personagem durante o imprevisto.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Música no set

Havia uma certeza sólida ainda nas primeiras conversas sobre Kassandra, antes mesmo de Roger Monteiro apresentar a primeira versão do roteiro: as filmagens teria música ambiente. 

O filme teria poucos diálogos e a maioria da sua sonorização acontecerá na pós-produção, o que permitia a presença de música no set sem atrapalhar no som ambiente. A ideia foi bem recebida pela equipe como um todo, mas especialmente pelo compositor Chico Pereira (foto), que fez um playlist para rodar não só enquanto as cenas eram feitas, mas também nos intervalos. Renata Stein igualmente apreciou a ideia: pôde escolher as próprias músicas para as cenas mais emotivas, auxiliando a sua atuação. 

Abaixo, dois exemplos das músicas tocadas nas primeiras filmagens de Kassandra. A primeira é uma peça de Phillip Glass, uma das referências coletadas por Chico, e a segunda é o tema do filme Réquiem Por Um Sonho, composta por Clint Mansell e que Renata escolheu para tocar repetidamente em alguns momentos da filmagem:

quinta-feira, 1 de março de 2012

Relatos de Kassandra - III - as filmagens

As impressões da intérprete de Kassandra, Renata Stein, durante as filmagens do curta. Os relatos sobre os ensaios podem ser lidos aqui e aqui.



1º Diária - 07/01/2012

Foi um dia cansativo, na verdade, eu já cheguei um pouco "mole" no set de gravação. Parece que demorei o dia todo para me acostumar a trabalhar com tantas pessoas na sala da casa da Kassandra. Apesar disso, acredito que consegui alcançar o clima da vida de Kassandra rapidamente. Porém, isso me fez ficar a diária toda quieta, observando e muito concentrada, o que me deixou um pouco "pra baixo".

A concentração me ajudou na cena mais difícil do dia, a Cena 5, quando precisei chorar, e mesmo assim foi muito complicado. Eu me senti sensível a toda situação, me envolvi, me emocionei, mas a lágrima não saiu tão fácil. Sei também que muito dessa dificuldade se dá devido os muitos cortes que tem entre um take e outro, fazendo muitas vezes esfriar o clima. As lágrimas, as poucas lágrimas, saíram após um olhar do diretor Ulisses. Me ajudou pensar que eu poderia estar decepcionando ele.

A presença do meu colega de elenco Maico me fez sentir melhor, já que era uma das poucas pessoas que eu conhecia bem e me sentia a vontade como Kassandra. Eu cheguei no set já me preparando para ser Kassandra, conheci a maioria das pessoas lá mesmo e não tive oportunidade para me entrosar com elas. Assim me pareceu que só o Maico e o Ulisses estavam acreditando no meu trabalho, e isso me deixou mais reclusa durante as gravações.

Conversando com o diretor, percebemos que isso é uma das diferenças entre teatro e cinema. São muitas pessoas trabalhando no set, cada um com uma função e concentrada totalmente nela, muitas pausas para trocar o enquadramento e a luz e eu, no caso, sozinha sem outros atores, tentando me concentrar. No teatro são meses de preparação e ensaios, sempre com os mesmos atores, criando uma relaçãoo de confiança. E depois temos a apresentação, onde temos os olhares todos voltados para nós.

Cheguei em casa exausta e extremamente sensível.

2º Diária - 08/01/2012

Hoje o dia foi mais leve, em questão de concentração e sensibilidade. Cheguei mais à vontade no set e o Maico chegou mais cedo, e a Suzana Witt estava lá também. Assim eu ri e me descontrai mais, porém fez eu ter mais dificuldade para me concentrar em certas cenas depois. Percebi que, por mais que seja pesado ser Kassandra, é necessário muita concentração para sê-la. Assim voltei um pouco para a reclusão para não falhar. Senti cheiro de café durante um bom tempo, por causa da camisa do meu colega de elenco Leandro Lefa.

O que foi pesado hoje foram as cenas de ataque, de fuga e de outros desastres, ou seja, muita pancadaria e  como resultado, muitos roxos. E o complicado do dia foi resolver as cenas com os passarinhos, afinal parece que todos eles tinham algum problema parecido com o da Kassandra, todos doidinhos. 

Cheguei em casa satisfeita.

3º Diária - 09/01/2012

Eis o Homem Grande. Hoje ele resolveu aparecer. Foram gravadas as cenas com ele, com sangue e a maioria das cenas com plano detalhe.

Que dia cansativo e estranho. Não sei, ou melhor, não sabemos dizer o porquê, mas estava esquisito. Achei o diretor mais impaciente hoje também (será que ele vai me permitir postar isso?).

Não por isso, mas hoje não achei que dei tudo de mim. Acho que era cansaço mesmo. Ser Kassandra cansa. E apesar de todo o cansaço, no final das gravações eu permaneci lá no set. Preguiça? Despedida? Ou seria apenas o maravilhoso pãozinho da Ramona e a massagem do Maico que me prenderam lá?

Kassandra agora só nos próximos meses com muito mais sangue e cores.

Agradeço muito a toda equipe que contribui para a concretização desse curta e que esta dando vida a um sonho do Ulisses, e que agora também é meu.

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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O filme dentro do filme

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Um simples detalhe do roteiro de Kassandra acabou criando um monstro totalmente novo e de proporções únicas. Está lá no roteiro de Roger Monteiro, na cena 7: o vizinho, personagem de Leandro Lefa, está "em frente de uma televisão ultrapassada que exibe um filme pornográfico de gosto duvidoso".

Ao invés de simplesmente ocultar a televisão ou de usar um vídeo erótico qualquer, o diretor Ulisses da Motta Costa resolveu filmar algumas cenas eróticas -- todas soft, mudando um pouco o conceito original, sem sexo.

"Como referência, comecei a pensar numa pornochanchada nacional do final dos anos 70, início dos anos 80", conta ele "Até porque não dava para colocar ninguém em situação embaraçosa, mas sim deixar tudo num clima de diversão. Por isso, convidei uma amiga de longa data, a Elena Meneghetti, que na faculdade de publicidade fez um trabalho vestida de Tiazinha. Ela é despachada e super bem-humorada, perfeita para o que precisávamos".

Frame "roubado" do material já produzido para o filme dentro do filme
As cenas a serem usadas em Kassandra foram rodadas em pouco mais de duas horas na casa da própria protagonista, na distante Zona Sul de Porto Alegre. Maico Silveira fez uma participação relâmpago como um homem que é seduzido por Elena. A quantidade de diversão nesta filmagem foi tal que a diretora de produção Ramona Barcellos ligou para ver se o trabalho estava ok e tudo que ouviu foram sonoras gargalhadas.

A equipe foi improvisada: além de Ulisses dirigindo, o produtor Roberto Coutinho fez a direção de fotografia, o publicitário Daniel Coutinho foi produtor de set, o músico Chico Pereira montou o vídeo. A única em sua função foi a figurinista Giulia De Cesero, que também fez direção de arte.

Não demorou muito para o que era apenas uma cena rápida virasse um "projeto maior": um trailer falso de uma pornochanchada passada em Porto Alegre, aos moldes daqueles vistos no projeto Grindhouse. Nomes provisórios como "Deu Pra Ti, Zona Sul" ou "A Desinibida do Lami" pipocaram entre a equipe. Não só isso: até pseudônimos artísticos estão sendo inventados, para deixar num clima mais setentista -- fora ideias de mais cenas e personagens.

"Entendi porque o pessoal fazia pornochanchadas naquela época: é muito divertido", revela Roberto Coutinho. "É um desafio ter que fazer algo propositalmente ruim", reforça Ulisses. "Por isso a equipe improvisada foi essencial para não obtermos um resultado estético". Chico Pereira, responsável por montar a pequena "pérola", entendeu essa dificuldade. "Estava montando direitinho as cenas quando eu pensei: não, tenho que desaprender o que eu sei", conta ele.

Novas cenas serão feitas no intervalo das filmagens de Kassandra. Aguardem!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Do elenco: Luis Franke

 
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Em dado momento nas primeiras filmagens de Kassandra, ocorre o seguinte diálogo entre o ator Luis Franke e o diretor Ulisses da Motta Costa:

Ulisses: Sabe que eu sou um diretor sem-noção, né?
Luis: Não. Com um pouco de noção, um pouco.

Alguns minutos depois:

Ulisses: Luisão, sabe por que eu sou um sem-noção?
Luis: Por quê?
Ulisses: Porque só um sem-noção chamaria um ator vencedor de dois prêmios Açorianos para fazer um personagem que... Não fala.

Luis Franke vive o misterioso Homem Grande: um homem de proporções imensas cujo propósito permanece um mistério para a protagonista, já que costuma aparecer como uma ameaça. "Kassandra é um passeio que nos conduz ao encontro do real e do imaginário, da lucidez e da loucura, do enfrentamento e do encontro com o nosso verdadeiro 'eu'", define o ator.


Durante os ensaios, Luis era um dos mais mais preocupados em debater os significados dos personagens e das suas ações no decorrer da narrativa. Queria saber qual a função do Homem Grande em relação à protagonista. "Penso que meu personagem representa a coragem adormecida de Kassandra, que vai se manifestar quando for exigida", revela.

Ator requisitado em cinema, publicidade, televisão e, claro, teatro, Luisão ganhou dois prêmios Açorianos de Teatro, pelo seu trabalho nas peças O Sobrado (ator coadjuvante) e A Bilha Quebrada (melhor ator).

Ele faz elogios à equipe e a seus colegas de elenco: "Tenho um imenso prazer de participar do elenco de Kassandra. Uma equipe técnica de alto nível, sob a batuta do excepcional Ulisses Costa que com maestria conduziu o processo, possibilitando a todos os atores um aprofundamento na psiquê de seus personagens. Contracenar com a jovem Renata Stein e os amigos o amigo Maico Silveira e Leandro Lefa foi, antes de tudo, uma honra".

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Do elenco: Suzana Witt


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Renata Stein não é a única mulher no elenco de Kassandra. Ela é acompanhada por Suzana Witt, que faz nada menos que duas participações diferentes no filme.

Não é coincidência o fato das duas serem colegas de faculdade, no Departamento de Artes Dramáticas da UFRGS. Suzana já trabalhou como assistente de direção em duas produções dirigidas por Ulisses da Motta Costa, o curta Ninho dos Pequenos e o projeto de seriado Clarice/Tom. Para este último, Suzana convidou Renata para um teste de elenco em janeiro do ano passado. Renata fez teste para dois personagens e foi selecionada para um dos papeis principais -- conhecendo assim o diretor e parte da equipe que mais tarde fariam Kassandra.

De assistente de direção e produtora de elenco, Suzana foi promovida a atriz: "Nos trabalhos anteriores com o Ulisses eu estava acostumada a trabalhar atrás das câmeras", ela conta. "Em Kassandra foi diferente, mas nem tanto! No fim, equipe e elenco são um só grupo". Uma curiosidade: ela foi colega de escola das duas figurinistas de Kassandra, Giulia De Cesero e Isabela Boessio. A diversão das três foi pensar num figurino para uma prostituta (um dos papeis de Suzana).

Esta personagem tem uma aparição muito rápida, porém complicada. Suzana não teve tempo de ensaiar com Leandro Lefa, seu parceiro de cena, e as indicações de diálogo no roteiro eram vagas. Ambos os atores e o diretor Ulisses pensaram na hora da filmagem em como fazer o casal ter uma "discussão em termos chulos". 

No primeiro take, ambos vinham em direção à câmera, Leandro Lefa murmurando algo. Ao que Suzana responde com um sonoro:

- Ah, querido, assim é bem mais caro!

A equipe teve que segurar o riso até o "corta". "No dia em que eu participei, me diverti, como sempre costuma acontecer quando trabalho com essa gente! Confio muito no trabalho que foi (e está sendo) feito, e aguardo ansiosa para ver como ficou!", complementa a atriz.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Filmando em preto-e-branco


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A fotografia em preto-e-branco sempre foi uma das ideias fundamentais na criação de Kassandra. Desde sempre se imaginou o filme sem cores. A imagem tinha que ser pensanda em termos de claro e escuro. Portanto, as decisões da fotografia, da arte, do figurino e da maquiagem precisam ser diferentes do normal.

O diretor de fotografia do projeto é Pablo Chasseraux (foto abaixo), um dos mais requisitados profissionais no Rio Grande do Sul, com dúzias de projetos de publicidade, TV e cinema -- uma amostra de seu trabalho pode ser vista aqui. Ele está usando uma Cannon 5D e, na verdade, está gravando as imagens coloridas, para depois o preto-e-branco ser aplicado na pós-produção. Contudo, as cenas são monitoradas sem cores. É preciso ver se os contrastes de claro e escuro estão funcionando e se a imagem não está excessivamente cheia de cinzas.

Como  a preocupação era se as áreas do enqudramento estavam claras ou escuras, o diretor de fotografia passou a não se importar com a temperatura de cor. Ou seja, alguns planos tem luzes frias e quentes misturadas. Se vistas em cores, parecem uma baderna. Mas no preto-e-branco criam um efeito extraordinário. Cauteloso com o carnaval de cores que apareciam na câmera, mais de uma vez Pablo perguntou ao diretor Ulisses da Motta Costa:

- Tem certeza que vai ser em preto-e-branco, né? Porque tem uma luz roxa aqui.


As figurinistas Isabela Boessio e Giulia De Cesero também tiveram suas questões para resolver. Um dos personagens, por exemplo, precisava usar uma camisa escura em dado momento. Elas conseguiram uma camisa azul-marinho, esperando que ela desse o resultado esperado. Na hora de rodar, a supresa: o azul virou um insípido cinza-claro diante da câmera. Uma rápida correria e uma camisa preta do publicitário do filme, Daniel Coutinho, resolveu o problema.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

As imagens de Kassandra - 2

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Para aumentar a curiosidade, mais uma leva de fotos feitas por Daniel Coutinho das primeiras filmagens de Kassandra -- com Renata Stein mostrando várias faces (primeira parte das fotos aqui):

Claquete, ação!

Leandro Lefa entrando em cena.

Ulisses da Motta Costa fingindo que dirige. :D

"Calma, Kassandra. É só o mundo lá fora".

Tchau e até o próximo post!

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

As imagens de Kassandra - 1

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Fim da primeira parte das filmagens! Um aperitivo de imagens feitas por Daniel Coutinho:


"Estica mais, Renata. Isso, agora mais pra baixo".

Maico Silveira sorrindo para ganhar simpatia
O triste velório do produtor Roberto Coutinho.
Suzana Witt quer que VOCÊ assista ao filme.
O vento dos deuses.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O Nascimento de Kassandra



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Amanhã, sábado, começam as filmagens de Kassandra. Serão três dias como quaisquer dias de filmagem são: intensos, corridos, inesquecíveis.

Aguardem as histórias da produção! Garantimos que serão divertidas.