Paciente: Sexo feminino. Vinte anos.
Estresse pós-traumático. Alucinações visuais.
Avistamentos de um vulto, o "homem grande".
Cartas de tarô, de origem desconhecida.
Muda.
Mora só.
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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Kassandra recebe oito indicações no FCO



Kassandra é o filme com maior número de indicações no 1º Festival de Cinema Online. Semana passada foram divulgados os finalistas nas doze categorias e nosso filme recebeu nomeações em oito delas. Veja mais aqui

Anteriormente, Kassandra tinha recebido onze pré-indicações na primeira fase do festival (em que havia 25 curtas por categoria). A comissão de seleção fez uma nova triagem e diminui para apenas cinco a quantidade dos indicados para cada prêmio. 

Das oito nomeações de Kassandra, uma delas foi obtida via voto de internautas. Na categoria Júri Popular, o curta ficou em segundo lugar, com 562 votos. Para nos ajudar na fase final da votação do Júri Popular, basta entrar neste link aqui e curtir a foto até o dia 13 de novembro.

A premiação acontecerá em Brasília, no dia 15 de novembro.

Abaixo, todas as categorias em que Kassandra concorre. Aqui, a lista de todos os competidores:
  • Melhor Filme
  • Melhor Filme Júri Popular (vote aqui)
  • Melhor Diretor (Ulisses da Motta Costa)
  • Melhor Atriz (Renata Stein)
  • Melhor Fotografia (Pablo Chasseraux)
  • Melhor Som (Roberto Coutinho e Leandro Lefa)
  • Melhor Edição (Alfredo Barros)
  • Melhor Trilha Sonora (Chico Pereira)

quinta-feira, 13 de março de 2014

Entrevista: Ulisses da Motta Costa

O diretor de Kassandra, Ulisses da Motta Costa, concedeu esta entrevista foi publicada para o site DarkVeins, conduzida por Lady of Sorrow (que escreveu uma crítica sobre o filme em italiano e em inglês). A entrevista original, em inglês também,  pode ser lida aqui.


Abaixo, segue a tradução para o português, onde o diretor fala sobre as suas origens, sobre os motivos pelos quais fez Kassandra, sua relação com o cinema italiano e sobre Zé do Caixão -- além de outros projetos:

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Entrevista com o cineasta brasileiro Ulisses da Motta Costa, que dirigiu Kassandra, o curta em preto-e-branco que foi premiado no 41º Festival de Gramado na sessão Curta-metragem Gaúcho com Melhor Fotografia.

Ulisses fala de seus trabalhos, paixões, sobre crowdfunding e projetos futuros.

L: Olá, Ulisses, conte-nos sobre você. Onde você cresceu? Qual sua história? Quando e como você começou a trabalhar com cinema? 

U: Vou tentar ser o mais breve o possível: eu nasci e fui criado no sul do Brasil, no interior. Eu morava numa chácara até completar 22 anos, numa pequena cidade chamada Montenegro, no estado do Rio Grande do Sul. Como a maior parte dos brasileiros, sou o resultado de uma miscigenação muito especial, então sou parte português, parte espanhol, parte árabe, parte guarani, parte alemão, parte francês e, claro, parte italiano! Um lado inteiro da minha família ainda usa o sobrenome do nosso ancestral italiano, Manfredini.

Enfim, sobre o cinema: minha brincadeira favorita quando eu era criança era imaginar filmes na minha cabeça. Havia um velho cinema na cidade, mas era longe de casa e o freqüentei poucas vezes durante minha infância. Então, quanto minha mãe finalmente conseguiu dinheiro para comprar um videocassete, no início dos anos 90, eu comecei a assistir a tudo que eu podia. Não levou muito tempo para que eu decidir que queria ser um diretor de cinema, o que era um problema então: a produção de cinema brasileiro estava vivendo a pior crise da sua história, com apenas um longa sendo lançado por ano. As pessoas costumavam dizer na época que nossa cinematografia estava quase morta. As únicas universidades com graduação em cinema eram no Rio de Janeiro e São Paulo, a mais de mil quilômetros de distância de onde eu vivia.

Então, eu tive que esperar ficar adulto; esperar para me mudar para São Leopoldo, uma cidade maior e próxima da capital do estado; esperar que a produção de cinema crescesse de novo no Brasil; esperar que as câmeras digitais finalmente chegassem na indústria para finalmente, em 2004, com 25 anos de idade, eu começasse a produzir meu primeiro curta, O Gritador. E ainda assim esse filme de apenas 15 minutos levou quase três anos para ficar pronto! Mas desde então, eu sempre trabalhei com cinema, às vezes como crítico, às vezes como professor, às vezes como produtor, diretor e roteirista em pequenos projetos.  

Ulisses (ao centro) dirigindo Leandro Lefa e Renata Stein em Kassandra


L: Você é o diretor de Kassandra, um curta de terror em preto-e-branco. Você fez o filme para você mesmo ou tinha um público em mente enquanto o escrevia?

U: Eu acho que sempre fazemos os filmes que queremos ver. Ninguém dedicará dias, meses, anos para fazer algo que não queira assistir, eu acho. Mas eu também acredito que os filmes que tu cria são uma espécie de auto-purificação, ou no mínimo uma auto-fantasia. Os filmes podem ser tanto uma representação de como o mundo poderia ser como uma forma de terapia intensiva. Kassandra é um filme do segundo tipo. Mas no momento em que eu decido que eu farei um filme, eu começo a pensar no público. Nós usamos bastante a expressão “espectador”, uma única pessoa na audiência. Alguém que tu não conhece, uma mulher ou um homem sem rosto. Eu gosto de pensar que esta pessoa em particular só quer fazer parte de uma história, seja ela curta ou épica. Então, eu quero que o espectador acompanhe os personagens e a história que estamos contando. Mesmo se for uma história difícil.

E eu sempre quis trabalhar em preto-e-branco. Quando a ideia do filme explodiu na minha cabeça, já era sem cor. Desde o início era uma história para ser contatada apenas com luz e sombras.

L: Seu filme lida com transtornos de ansiedade (stress pós-traumático, mutismo e agorafobia). Por quê? 

U: Bem, como eu disse, um filme pode ser uma purificação para o seu criador... Eu cuidei de uma pessoa com problemas psiquiátricos por alguns anos. Foi uma vivência complicada, dolorosa e intensa para nós dois. As pessoas costumam me perguntar, depois que veem o filme: como você tem essas ideias? Claro, Kassandra não conta uma história real ou algo assim. Talvez seja a vingança que nunca aconteceu na vida real, hehehehe. Mas essas ideias vieram da observação e da minha experiência do que acontecia com alguém que eu era próximo.

L: Fale sobre o título. Por que “Kassandra"?

U: Digamos que a ideia de Kassandra tomou a minha mente num ataque massivo e coordenado. A maior parte dos conceitos do filme nasceu ao mesmo tempo, numa noite de inverno, incluindo o nome da protagonista. Ela teria visões nas quais ninguém acredita serem reais, então eu lembrei da Cassandra da mitologia grega, uma sacerdotisa que foi amaldiçoada em prever o futuro e nunca ter alguém que acreditasse nas suas previsões. A letra K no nome é uma referência a este personagem lendário, apesar de não ser uma modernização ou adaptação do mito. 

As filmagens de Kassandra



L: Kassandra teve vários apoiadores. O que você pensa a respeito do crowdfunding?

U: É algo maravilhoso. A prova que é importante é o fato de que, mais e mais, cineastas e artistas já conhecidos pela mídia e pelo público e com recursos disponíveis estão preferindo o crowdfunding, porque ele os liberta da burocracia das empresas e dos governos. O artista não precisa negociar para ter sua independência criativa, não precisa fazer o jogo de interesses dentro de um estúdio ou de uma gravadora. O público decide o que vale a pena receber apoio. É como uma “seleção natural artística”, por assim dizer. Claro, se tu é um artista independente, ou iniciante, não dá pra sair pedindo um milhão de dólares. Tu tem que encontrar o caminho com mil dólares. Mas são mil dólares vindos de pessoas que acreditam em ti, ou no mínimo acreditam no projeto. Este tipo de apoio é mais importante do que o dinheiro em si.

L: Você fez algum outro filme antes deste? Se sim, quantos outros? Pode falar sobre eles? E sobre O Gritador?

U: Sim, Kassandra é o meu terceiro curta de ficção. Eu não gosto de me repetir, porque eu tenho interesse em vários assuntos. E eu também gosto de diferentes tipos de cinema e seus incontáveis gêneros. Então, O Gritador (2006) era para ser uma espécie de filme de aventura, mas alguns o consideram um terror “light”. Meu segundo curta, Ninho dos Pequenos (2009), é completamente diferente: é um drama familiar com apenas uma locação e duas atrizes falando o tempo todo.

O Gritador foi um projeto maluco não apenas para um diretor iniciante, mas para uma equipe iniciante também. Como eu disse antes, demorou quase três anos para ser feito. Eu dividi o roteiro e a direção com meu amigo Carlos Porto. O filme é sobre uma lenda folclórica do nosso estado. É uma espécie de alma penada que vagueia à noite nas matas e nos campos. Se tu responder ao seu grito, o fantasma se aproxima mais e mais de ti. Bem, nossas locações eram a mais de 200 km da nossa cidade, em lugares difíceis de atingir: quebramos pelo menos dois carros durante pesquisa e filmagens. Também queríamos usar efeitos visuais, com atores na frente de um fundo azul e composições com desenhos feitos à mão e elementos em computação gráfica. Tudo isso, claro, sem dinheiro. Tem algumas coisas que só a ingenuidade pode explicar... Se vocês quiserem ver, tem no Youtube.

L: O que você acha da crescente popularidade dos filmes independentes? 

U: Eu creio que é um fenômeno inevitável. É mais fácil aprender sobre diferentes tipos de expressão artística na Internet. Então, se tu te interessa sobre certo assunto, dá para pesquisar a respeito dele infinitamente. Tu sempre vai achar algo novo. Tu pode te aprofundar em coisas que não têm acesso à grande mídia. Isso inclui não apenas filmes, mas música, artes visuais, fotografia...

L: Quais são suas maiores influências? Qual é o seu Top 5 de favoritos de todos os tempos?

U: Hum, é difícil responder... Eu acho que tudo que assistimos pode ser uma influência. Eu sinto que Bruce Lee está no meu DNA artístico tanto quanto Fritz Lang. Mas eu tento usar alguns diretores como exemplo para mim. Digamos que Spielberg me ensinou a estar cercado de colaboradores talentosos, que Kubrick me ensinou a nunca me repetir, que Hitchcock me ensinou a importância de planejar previamente o que será filmado e que Werner Herzog me ensinou que tu tem que ser um filho da puta corajoso para fazer cinema. Isso, claro, se eu aprendi alguma coisa.

Sobre o Top 5... Vai parecer esquizofrênico, eu garanto: Ben-Hur (1959), Antes do Amanhecer (1995), Os Caçadores da Arca Perdida (1981), Metrópolis (1927) e Três Homens em Conflito (1966). E o meu cineasta favorito de todos os tempos é Akira Kurosawa.

L: Qual é o seu cineasta italiano de terror favorito?

U: Deixe-me primeiro contar sobre minha relação com o cinema italiano! Quando eu era garoto, havia um monte de filmes italianos passando na televisão, que eu não sabia serem italianos (porque, claro, eles eram dublados em português). Então, eu passava as tardes de sábado assistindo a velhos filmes peplum, como Os Argonautas (1960) ou Os Últimos Dias de Pompeia (1959). E, claro, alguns filmes de terror à noite, como A Ilha dos Homens-Peixes. Eu vi várias vezes em VHS uma coprodução Brasil-Itália dos anos 80, Perdidos no Vale dos Dinossauros (também conhecido como Cannibal Ferox 2). Quando eu decidi que seria cineasta, eu comecei a pesquisar sobre cinema em livros e revistas. Naquela época, tudo que eu encontrava sobre filmes italianos eram coisas sobre Fellini, Antonioni e Visconti, ou sobre o Neorrealismo. Não havia menção aos giallo, aos peplum ou aos western-spaghettis, Mario Bava, Ruggero Deodato ou Luigi Cozzi. Apenas anos mais tarde eu fiquei sabendo deste universo fantástico. Só aí descobri que aqueles filmes profundamente divertidos que eu via eram italianos.

Meu artista italiano de terror favorito não é um cineasta, é uma banda! Eu adoro o trabalho do Goblin em Suspiria, Prelúdio para Matar e Zombie – O Despertar dos Mortos. O que eles conseguiram atingir é totalmente único em termos de trilha sonora.

A refinada formação do nosso diretor em filmes italianos....

L: José Mojica Marins é um adorado cineasta brasileiro. O que você acha do seu personagem Zé do Caixão, criado para o filme À Meia-Noite Levarei Sua Alma?

U: Mojica é um colosso. Ele é uma grande influência não apenas para os fãs brasileiros de terror, mas para todos os cineastas do país. Ele é um cara sem nenhuma educação formal sobre cinema e foi simplesmente revolucionário para o seu tempo, especialmente nos anos 60. Ele foi perseguido e alguns dos seus trabalhos foram censurados durante a Ditadura Militar. Um dos seus filmes mais intrigantes, O Despertar da Besta, foi feito graças a seus amigos, que lhe doaram película. Ainda assim, o original foi apreendido pelas autoridades. O filme só viu a luz do dia poucos anos atrás.

Ele também fez tudo que era tipo de filme, não só terror. Fez desde fitas experimentais a faroestes. Ele também dirigiu filmes pornôs nos anos 80 para sobreviver. Sobre o personagem, Zé do Caixão, é um dos maiores ícones do horror de todos os tempos. Vocês sabem como ele foi criado? Mojica sonhou que um homem de capa e cartola o levava para ver a sua própria sepultura. Ele acordou assustado feito o inferno e decidiu fazer um filme sobre esse homem assustador. Foi assim que ele fez À Meia-Noite Levarei Sua Alma, um filme de terror incrível e poderoso para os padrões da época.

L: Quem é o melhor diretor brasileiro em atividade hoje?

U: No gênero terror, o maior nome independente é Rodrigo Aragão, que recentemente fez uma trilogia de zumbis e monstros. Meu amigo Davi de Oliveira Pinheiro fez uma curiosa mistura de gêneros em Porto dos Mortos. Além do universo de fantasia e horror, tem vários bons cineastas, tais como Fernando Meirelles, Afonso Poyart, José Padilha (que recentemente dirigiu a nova versão de Robocop) e Jorge Furtado, que trabalha no meu estado e é uma grande referência para mim desde os anos 90.

L: Quem são os seus autores de horror favoritos?

U: Eu confesso: nunca me interessei muito em literatura de horror. Mas a idéia para Kassandra surgiu quando eu lia Nas Montanhas da Loucura. Como preparação para o filme, eu devorei os trabalho de H.P. Lovecraft. E fiz o elenco e a equipe também lerem alguns dos seus contos!

L: Qual seu próximo projeto? 

U: Eu tenho muitos projetos! Quem não tem? Eu vou começar a montagem do meu novo curta, Luz Natural, neste mês. É um trabalho experimental totalmente filmando sem luz artificial e com apenas dois atores em cena, conversando depois de terem transado. Definitivamente não é um filme de terror! Eu estive no Rio de Janeiro recentemente, trabalhando como assistente de direção para o meu amigo Victor Fiuza num drama social chamado Os Olhos de Cecília. Filmamos boa parte deste trabalho na favela, foi uma experiência realmente intensa. Também estou produzindo Pelos Velhos Tempos, um roteiro de Roger Monteiro, o cara que escreveu Kassandra, e que será dirigido por Pedro Barbosa.

E tem os longas. Um destes projetos é uma ficção-científica dividida em episódios, todos sobre o mesmo universo, com seis diretores diferentes (incluindo eu). O título provisório é O Fim da História. Outro projeto é O Pecado da Carne, uma adaptação da peça O Linguiceiro da Rua do Arvoredo, que por sua vez é baseada na história do primeiro serial killer brasileiro, um homem que fazia linguiça da carne das suas vítimas e as vendia para toda uma cidade no século XIX.

Ah, sim. O mesmo Roger Monteiro está tentando me convencer a fazer outro filme de terror, mas com mais violência e gore. Kiumba é o nome e é sobre uma entidade afro-brasileira que é convocada quando se quer vingança. Mas eu estou pensando sobre isso ainda...

L: Deixe uma mensagem para a comunidade DarkVeins!

U: Quero agradecer a oportunidade e de desejar que o DarkVeins cresça mais e mais. É um espaço virtual incrível. Saudações do Brasil para todos!

L: Obrigada, Ulisses! Boa sorte para você!

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Entrevista: Renata Stein, Kassandra em pessoa



Enfim, a entrevista com a atriz que deu vida para Kassandra, Renata Stein. Este é o primeiro curta da jovem atriz (antes, ela tinha feito um clipe e o piloto de uma websérie). Apesar da pouca idade experiência e idade (tinha19 quando começou a ensaiar para Kassandra), Renata carrega o espectador para dentro do filme.

O que mais te impressionou no filme? O conceito, o roteiro, a produção, a direção, a fotografia?

Pergunta difícil essa. Posso só dizer que me apaixonei por fazer parte do curta-metragem e da equipe de Kassandra?


Mas pelo quê você se apaixonou no projeto?

Pela dedicação e alegria da equipe de produção, pela parceria e a organização da direção, pela magia que é a fotografia preto e branco, que deixa tudo tão bonito, por poder dar vida a um roteiro tão cheio de mistérios e experienciar a personagem Kassandra.

O diretor Ulisses da Motta Costa disse que você foi a primeira pessoa que ele convidou para o filme. O que você achou de ser a protagonista de um filme de terror?


Achei irônico, muito irônico. Quando estava a sós com meus pensamentos eu sempre pensava que, como atriz, uma das coisas que eu não iria querer fazer era atuar em um filme de terror. E lá veio o Ulisses com a proposta do filme. Sou uma pessoa bem medrosa para certas coisas, não achei divertida a proposta. Só aceitei por três motivos: era o Ulisses dirigindo, a equipe e o elenco eu sabia que iriam ser muito bacanas e porque eu gosto muito de atuar.

Kassandra é um papel denso e bastante complexo, com várias camadas. Onde você buscou inspiração para compor a personagem, com todas as diferentes reações que ela precisava mostrar?


Eu não diria inspiração não, porque inspiração me remete a algo divino. Eu diria que foram muitos encontros, discussões, ensaios no apartamento onde seria o set e trabalho em grupo. Foi o trabalho durante alguns bons dias que me ajudou a conseguir criar Kassandra. Foi a minha confiança na equipe e a confiança da equipe em mim. E eu ainda acho que ela não foi criada 100%. Depois das gravações fico pensando o quanto ainda eu poderia ter feito. Não é inspiração não, é trabalho e entrega total antes e depois do “ação”.

O que foi mais difícil na hora de atuar? Foi o fato de que a personagem é muda e, portanto você não tinha o suporte da voz para poder atuar?


Sei que essa parece ser a parte mais difícil, mas eu sempre gostei da ideia de ter que atuar com a potência total no corpo e nos olhos. É claro, isso é difícil, mas é maravilhoso, ainda mais porque a câmera pode capturar os mínimos detalhes. E falar, acreditem, é bem complicado também. O mais difícil foi a solidão do set entre as mudanças de planos. Cada pessoa da equipe está focada em sua função para que tudo ocorra bem, e como na maioria das vezes eu era a única atriz, me sentia um pouco sozinha. Toda a vez que o Ulisses falava “corta” e todos começavam a se organizar para o outro plano, eu tinha que tentar me manter o mais concentrada possível para não perder o corpo, o olhar, a atmosfera que tinha se criado. Ah, é bem difícil.

Você passou por um processo de preparação bastante intenso para os moldes um curta-metragem, com exercícios, leitura de roteiro, material de referência para ler e ouvir. O quanto estas atividades ajudaram você? Alguns exercícios vocês repetiam no set, certo?


Estes exercícios foram essenciais. Poder trocar com a equipe, com o elenco, é muito produtivo e me deixou mais segura e a vontade para ir descobrindo “as camadas de Kassandra”, e de toda a sua história. Sim, nos dias das gravações repetimos os exercícios físicos por serem exercícios que dão voz ao corpo, já que era essa a parte que precisava ser muito forte na atuação para fazer Kassandra.

Que tipos de exercício vocês fizeram para ajudar na concepção do personagem? Você não podia falar durante estas atividades, certo? Como foi essa sensação?

Nós tivemos vários momentos, como reunião com todo o elenco conversando sobre a história de Kassandra, ouvindo a opnião dos atores e o diretor nos dando alguns materiais de referência para leitura ou para assistir. Outro momento foi a leitura do roteiro e mais conversas, onde o diretor me interrogou sobre algumas questões como do que eu tinha medo, o que me dava nojo, entre outras. A partir daí, passamos para a parte prática de exercíos para cliar a atmosfera de medo de Kassandra. Trabalhamos eu e o Maico com exercícios em que ele tentava me tocar e eu tinha que repelir e fugir, e outro que ficávamos percorrendo com o nosso corpo os espaços vazios do colega. Para mim, o primeiro foi bem bom e surgiram efeitos importantes para a concepção de cena e dos personagens. Outro exercício, que foi feito só comigo, e que foi importante, apesar de me deixar muito nervosa, foi lidar com o desconhecido, que para mim no caso era o escuro. Eu ficava deitada no sofa no escuro com as costas vulneráveis, o diretor falava e fazia ruídos e às vezes, o que era pior, simplesmente deixava que o silêncio me consumisse e me deixasse totalmente nervosa. É, eu tenho medo do escuro, hehehe.

Não falar era extremamente ruim, porque muitas vezes surgiam situações em que eu queria falar para não ter medo, gritar, xingar, e sabia que eu tinha que ficar quieta para experimentar essa sensação e não sair do jogo para a construção de uma personagem muda. Com certeza, não falar me incomodou muito nos ensaios e principalmente nas cenas que me deixavam assustada. Apesar de ter tido uma consequência boa, que foi anotar quase tudo que eu pensava ou sentia.



Kassandra conseguiu parte dos seus recursos através de financiamento coletivo. Você acompanhou o processo da campanha? Qual foi a sensação a ver que vocês tinham atingido a meta?


Desde que lançamos no site Catarse o nosso vídeo já deixei na barra de favoritos o link e diariamente eu olhava para ver como estava indo, e fui divulgando para algumas pessoas. Porém, na última semana eu comecei a me dar conta que não estávamos progredindo muito bem, então comecei a mandar e-mail para a minha família, amigos, amigos da família e pedindo para divulgarem para quem pudesse. E campanha no facebook direto também, é claro. Mandava mensagens para o Ulisses, feliz com o progresso dos últimos dias e, ao mesmo tempo, com medo de que não iríamos conseguir. Era frustrante pensar que poderia não dar certo. A sensação de atingir a meta foi quase igual a procurar seu nome no listão do vestibular e ver que esta lá. É muito bom.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

As imagens de Kassandra - 4

Viu a nova leva de fotos dos bastidores do curta? Então aqui vai mais algumas!

Fotos por Daniel Coutinho. Veja ainda mais fotos aqui, aqui e aqui.

You can also see the english version of this post!


Leandro Lefa e o diretor Ulisses passando uma cena
Uma cortina falsa para um plano subjetivo
Renata Stein e a boneca Blá-Blá
Imagem fantasmagórica no monitor
Leandro Lefa "entrando" no personagem



segunda-feira, 25 de junho de 2012

As imagens de Kassandra - 3

Enquanto as novidades não chegam, revelamos mais algumas fotos para vocês. Esperamos que gostem!

Fotos por Daniel Coutinho. Você pode ver a primeira parte aqui e a segunda parte aqui.

You can also see the english version of this post! 

 
Renata Stein e a câmera, uma relação de amor
Leandro Lefa, o vizinho asqueroso
Pablo Chasseraux (diretor de fotografia) e Ulisses Costa (diretor)
O "filme dentro do filme"
"Corta. Mais sangue"
 

terça-feira, 17 de abril de 2012

Trivia de Kassandra: mudanças, improvisos e gambiarras

Alguém poderia dizer que cinema é a arte de planejar um mundo ideal no roteiro, fazê-lo como puder na filmagem e tentar salvar tudo na montagem. Muitos detalhes do que é planejado originalmente acabam sendo modificados em cima da hora por causa de algum problema qualquer. É nessa hora que a criatividade da equipe é testada.

Não raro, as novas ideias acabam melhores do que as originais. Confiram algumas mudanças que aconteceram em Kassandra nas suas primeiras filmagens, em janeiro. E impeça que mais delas aconteçam nos ajudando no nosso financiamento coletivo! É fácil e ainda tem brindes!


- A dublê de Kassandra: Renata Stein já tinha sido liberada e não estava mais no set, enquanto a equipe filmava planos de detalhes de objetos e cenário. Até alguém lembrar que num plano de uma porta se fechando, Kassandra precisaria aparecer ao fundo, fora de foco. Sem a atriz no set, o jeito foi a continuísta Marina Cardozo (acima) colocar o figurino da personagem, tirar os sapatos e sair correndo em frente à câmera.

- O Achocolatado de Kassandra: Na primeira versão da história de Kassandra, a personagem só se alimentava de miojo. O roteirista Roger Monteiro (que tem implicância com miojo) substituiu a massa por garrafas de achocolatado -- que precisavam ser de vidro. O mais próximo disso que a diretora de arte Ana Gusson conseguiu foram garrafas de molho de tomate -- devidamente esvaziadas, lavadas e depois sujas com gotas de achocolatado. Ah, sim: o molho foi usando para alimentar a equipe. Não é à toa que um dos almoços foi cachorro-quente...

- Luzes e sombras: Numa determinada cena, uma luminária precisava projetar sombras no cenário. Como o abajur feito por Ana Gusson não tinha luz necessária para tanto, o eletricista Jô rapidamente recortou algumas estrelas em pedaços de papelão, no mesmo padrão da luminária. Os papelões formavam um círculo que era girado manualmente em torno de um holofote, projetando as sombras com perfeição na cena.

- Passarinhos em fúria: Havia dois passarinhos em cena, um manon preto e um periquito albino. No roteiro era previsto que Kassandra seguraria um deles na mão. Como o periquito era mais agitado, a cena seria feita com o manon. Entretanto, quando Renata Stein pegou o bichinho, ele a bicou e saiu voando pela locação, sendo recapturado de maneira relativamente fácil. O diretor Ulisses Costa tentou fazer o passarinho se acalmar, segurando-o por algum tempo, mas a ave continuava bicando furiosamente. A ideia foi abandonada e, no lugar do pássaro, Kassandra iria brincar com um bonequinho de Mozart -- uma ideia que funcionou tão bem que foi reprisada no vídeo do crowdfunding de Kassandra.

- Comprimidos de Tic-tac: Os remédios que Kassandra toma eram simples Tic-tacs (sabor menta). Eles aparecem em apenas duas cenas: numa, a personagem engole um; noutra, os comprimidos estão espalhados pelo chão. Algumas caixas de Tic-tac foram compradas e deixadas na sala de apoio. Contudo, elenco e equipe roubavam alguns sempre que podiam. Resultado: quando se foi rodar a segunda cena, as pastilhas tinham acabado. A solução foi pegar uma cartela de Dramin e usar comprimidos de verdade no cenário.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Preparando o elenco de Kassandra

Texto escrito pelo diretor Ulisses da Motta Costa sobre a preparação dos atores em Kassandra.

Ajude Kassandra a virar realidade! Participe e divulgue o nosso crowdfunding!!! 

A preparação de elenco virou coisa seríssima no Brasil. Há quem discorde ou concorde, há quem acha essencial, há quem defenda que isso tira a autonomia do diretor. Mas o certo é que ajudou a moldar a imagem atual do cinema nacional: atuações ao mesmo tempo naturais e viscerais.

Como Kassandra é um projeto pequeno, eu mesmo resolvi fazer junto com os atores um esboço de preparação de elenco (não é de longe a minha especialidade). O trabalho foi dividido basicamente em três partes (com os vídeos publicados anteriormente em outros posts ilustrando):


A - Ler e debater o roteiro:

Fazer leituras de roteiro e debater com os atores quais as impressões e compreensões que eles tiveram acerca do material é algo que eu sempre faço. Gosto de saber como eles enxergam as motivações e as ações do personagens (acima, uma leitura com Renata Stein, Maico Silveira e Suzana Witt).

Isso, não raro, muda detalhes do roteiro: não só as falas (descobrimos se realmente funcionam durante as leituras), como também características dos personagens. Por exemplo: no roteiro, havia menção de que o pulso de Kassandra tinha cicatrizes de tentativa de suicídio. Para Renata Stein, contudo, se a personagem tivesse tentado se matar, ela certamente conseguiria. No momento em que ela trouxe esta interpretação, pareceu fazer todo o sentido ela não ter as cicatrizes. Por conta da leitura que a atriz teve da sua personagem, um dos seus traços físicos foi modificado. 

A maneira como os atores captam o subtexto do roteiro é essencial também para saber o quanto que ele funciona. E é interessante ver como cada artista procura seu foco: na reunião vista no vídeo abaixo, as preocupações de Maico Silveira e de Luis Franke são diferentes: o primeiro quer entender melhor a protagonista, enquanto o segundo procura uma resposta mais clara para os elementos subjetivos da trama:


B - Preparação de atores

Nunca usei antes uma preparação de atores que envolvesse exercícios e trabalhos específicos para criar sensações e sentimentos nos atores. Mas em Kassandra achei que poderíamos fazer isso de forma intensa, especialmente para preparar Renata Stein para as várias camadas da personagem. No vídeo abaixo, um exercício de aquecimento em que ela e Maico Silveira não podiam se encostar.

Um dos nossos trabalhos desenvolvia reações ao medo: Renata tinha que ficar deitada num sofá no escuro (os ensaios aconteceram na locação, o que nos ajudou), com o rosto virado em direção ao encosto e as costas desprotegidas. Enquanto isso, eu caminhava lentamente em torno dela. Ela não poderia se mexer ou gritar: apenas mexer duas bolinhas de yin-yang nas mãos quando a tensão ficasse insuportável.

No início, cada estalido do chão de parquê desencadeava o tilintar das bolinhas na mão de Renata. Num dado momento, porém fiquei em silêncio por alguns minutos -- até que a própria ausência de som  fosse mais angustiante do que qualquer ruído.

Um exercício que usamos em vários momentos (inclusive minutos antes de filmar) foi sugerido por Maico: Renata não podia deixar que outra pessoa tocasse nela. Alguém tinha que tentar encostar nela com as mãos, as pernas e mesmo com o corpo. O que começava quase engraçado aos poucos virava uma espiral de desespero, em que a atriz tentava escapar do toque a qualquer preço.

O bom deste exercício é que podíamos mudar a pessoa que tentava tocar Renata (até mesmo eu fui um dos "agressores") conforme a situação -- foi particularmente dramático quando ela fez esta rotina com Leandro Lefa, poucos minutos antes de gravarmos uma cena em que o personagem dele tenta impedir Kassandra de passar por uma escadaria.

Com o mesmo Lefa elaboramos outra atividade: como seu personagem é uma ameaça a Kassandra, achei interessante eles trocarem de papeis e ela tentar subjugá-lo. A "brincadeira" era assim: Leandro ficava sentado no chão e tentava levantar, enquanto Renata impedia-o. Achei o exercício começaria leve, intensificando-se gradualmente. Que nada: ambos já tinham introjetado seus personagens de tal forma que se atracaram quase em luta corporal assim que eu disse "podem começar". 


C - Ensaios

Num certo ponto da pré-produção, os atores já conheciam muito bem o roteiro. Porém, o ensaio de pelo menos algumas das cenas era essencial para que começássemos a ver o ritmo interno delas, como seria a marcação do elenco e mesmo se os enquadramentos funcionariam.

É interessante ver o quanto que o resultado final da cena é diferente do que era no início dos ensaios em termos de atuação. Num primeiro momento, os atores ainda não estão totalmente confortáveis com o personagem. Por isso, abrimos espaço para improvisos e para ideias tolas -- num dos ensaios, pedi para que o elenco atuasse como se Kassandra fosse uma comédia, ao notar que o ritmo tinha se engessado num formato muito truncado. O resultado deu certo: limpou o excesso de reverência e pudemos voltar a algo mais contemplativo e ainda assim mais fluido.

No vídeo abaixo, a mostra de que o improviso funciona: o celular de Renata tocou  durante um ensaio. Ela, porém, não podia sair do personagem -- ou seja, não podia falar. Seu companheiro de elenco acompanhou o espírito e manteve-se no personagem durante o imprevisto.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Do elenco: Leandro Lefa


Hi! You can also read the Kassandra's English Version!

Ele ficou para o final, mas é importantíssimo: Leandro Lefa faz um dos principais personagens de Kassandra, um bizarro vizinho sem nome que representa uma ameaça à protagonista. No entanto, foi o último ator escalado para o filme.

De acordo com o diretor Ulisses Costa, a dificuldade estava em encontrar alguém que se diferenciasse fisicamente dos outros homens do elenco. "Roger Monteiro, o roteirista, tinha uma ideia de alguém mais velho e possivelmente mais corpulento", lembra ele. "Mas eu tinha medo que se confundisse com a imagem do Homem Grande". 

Ulisses escolheu Leandro Lefa por também ser conhecido de longa data. Ele foi um dos atores de O Gritador, primeiro curta do diretor. A promessa de trabalharem novamente permaneceu e mais de um projeto foi pensado para reatar a parceria, mas nenhum foi para a frente. Pesou o fato também de Lefa já ter experiência no cinema de terror -- participou do quase lendário Porto dos Mortos, um filme de zumbi rodado em Porto Alegre e que permanece inédito no circuito comercial.

A caracterização do personagem precisava ser muito específica. Apesar da agenda apertada do ator, ele conseguia mandar fotos por e-mail para a equipe, dando ideias de figurino, maquiagem, expressão facial e corporal (como na foto abaixo). "Apesar de não termos tido tempo para ensaiar como fizemos com a Renata, por exemplo, a dedicação do Lefa foi essencial para que o personagem estivesse pronto quando precisássemos dele no set", conta o diretor. 

Teste de figurino e maquiagem feito pelo próprio ator e mandado por celular para a equipe.
"Mérito do Uli: com inteligência e sensibilidade, ele sabe dizer exatamente o que quer construir e a coisa flui", diz o ator por sua vez. "A partir do roteiro, bastaram um café e 3 minutos de exercício de improvisação pra eu me sentir plenamente seguro e a vontade com meu personagem e com toda a equipe, sobretudo o restante do elenco".

Café? Sim: nas primeiras cenas em que participou, Lefa precisava parecer imundo. A diretora de arte Ana Gusson sugeriu que uma camiseta tipo regata fosse suja com café, para deixar uma aparência molambenta na fotografia em preto-e-branco. No fim das contas, o ator ficou usando a roupa úmida e com forte cheiro de café por várias horas, o que rendeu dúzias de piadas por parte de Renata Stein.

Sobre trabalhar em mais um filme de terror, Leandro comenta: "busquei criar um cara sem profundidade, impulsionado pelo sexo e que acha divertido ser nojento e causar repulsa. Interessante que em Porto dos Mortos também fiz um cara intelectualmente limitado e que por isso não sabe se portar como indivíduo, mas são personagens completamente distintos".

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Do elenco: Suzana Witt


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Renata Stein não é a única mulher no elenco de Kassandra. Ela é acompanhada por Suzana Witt, que faz nada menos que duas participações diferentes no filme.

Não é coincidência o fato das duas serem colegas de faculdade, no Departamento de Artes Dramáticas da UFRGS. Suzana já trabalhou como assistente de direção em duas produções dirigidas por Ulisses da Motta Costa, o curta Ninho dos Pequenos e o projeto de seriado Clarice/Tom. Para este último, Suzana convidou Renata para um teste de elenco em janeiro do ano passado. Renata fez teste para dois personagens e foi selecionada para um dos papeis principais -- conhecendo assim o diretor e parte da equipe que mais tarde fariam Kassandra.

De assistente de direção e produtora de elenco, Suzana foi promovida a atriz: "Nos trabalhos anteriores com o Ulisses eu estava acostumada a trabalhar atrás das câmeras", ela conta. "Em Kassandra foi diferente, mas nem tanto! No fim, equipe e elenco são um só grupo". Uma curiosidade: ela foi colega de escola das duas figurinistas de Kassandra, Giulia De Cesero e Isabela Boessio. A diversão das três foi pensar num figurino para uma prostituta (um dos papeis de Suzana).

Esta personagem tem uma aparição muito rápida, porém complicada. Suzana não teve tempo de ensaiar com Leandro Lefa, seu parceiro de cena, e as indicações de diálogo no roteiro eram vagas. Ambos os atores e o diretor Ulisses pensaram na hora da filmagem em como fazer o casal ter uma "discussão em termos chulos". 

No primeiro take, ambos vinham em direção à câmera, Leandro Lefa murmurando algo. Ao que Suzana responde com um sonoro:

- Ah, querido, assim é bem mais caro!

A equipe teve que segurar o riso até o "corta". "No dia em que eu participei, me diverti, como sempre costuma acontecer quando trabalho com essa gente! Confio muito no trabalho que foi (e está sendo) feito, e aguardo ansiosa para ver como ficou!", complementa a atriz.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Do elenco: Maico Silveira


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Já falamos bastante de Renata Stein, a protagonista de Kassandra. Hora de começar a falar dos outros integrantes do elenco. Um deles é Maico Silveira, que faz o terapeuta que cuida de Kassandra. 

Maico é um ator gaúcho com passagem na França e na Espanha. Apesar da participação em vários filmes entre curtas e longas, seu ecossistema costumeiro é o palco. Ou o que puder se tornar num palco: seu monólogo O Dia em que Aprendi a Dizer Não não precisa mais que um cubículo para ser encenado. 

Como um ator acostumado ao teatro entrou neste projeto? Maico é velho conhecido do diretor Ulisses da Motta Costa e de boa parte da equipe de Kassandra (como o compositor Chico Pereira e o produtor Roberto Coutinho). Ele participou do primeiro curta realizado por eles, O Gritador (2006). Na ocasião, Maico fez teste para três personagens diferentes e foi bem em todos -- o que motivou o diretor a comentar: "Esse cara está no filme. Não sei ainda em qual papel, mas está no filme".

Em Kassandra, ele tem uma participação pequena em cena. Contudo, sua presença foi essencial para se debater os conceitos de atuação e para o trabalho de preparação e ensaios. Como é também um pensador do teatro, ele  e Ulisses debatiam as diferentes ideias de atuação que dividem o trabalho na câmera e nos palcos.

"Em dado momento, conversamos sobre Hitchcock, que dizia ser essencial que, no suspense, o ator conseguisse fazer um olhar neutro, com o qual o diretor construiria o significado que quisesse através da montagem", lembra Ulisses. "E Maico passou a exercitar esta neutralidade, dando tintas muito leves de intenção num que outro momento, num trabalho de sutileza bastante difícil".

"Logo no início dos ensaios eu comentei com o Ulisses sobre 'alguns vícios de atuação, e completei: 'não me deixe fazer esse tipo de coisa no filme'", sublinha o ator. "Acho que ele conseguiu nos guiar de uma maneira muito suave em direção à proposta do trabalho. Ninguém ainda tinha feito suspense, e o próprio suspense nos ensina muito sobre interpretação em cinema".

Maico também tem participação no "filme dentro do filme" em Kassandra. Mas isso é assunto para outro post...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Relatos de Kassandra - II

Retirados das anotações feitas por Renata Stein no bloco do diretor Ulisses da Motta Costa, durante os ensaios. Leia aqui a primeira parte de Relatos de Kassandra.



- Tu quer isso presente sempre?

- Eu fiquei num lugar que tornava minhas costas vulneráveis, isso é horrível.

- E eu não sabia o que me incomodava mais:
                           tua voz
                               ou
                         o silêncio

- O barulho no parquê é + horrível.

- É o interfone que toca, né?

- Foi "estranho" porque eu não chorei, mas meu corpo ficou sensível, sei lá, tanto é que me deu meio que uns "espasmos".

- Tô quase com fome :P

- Ensaio bem bom. Já gosto muito da Kassandra.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Relatos de Kassandra

Escritos por Renata Stein no bloco de anotações do diretor Ulisses da Motta Costa durante o primeiro ensaio de elenco. Os tópicos são propositalmente aleatórios e são reproduzidos fielmente de acordo com o que está escrito:




Relatos de Kassandra.

- Estou angustiada, não posso falar.

- Fui mordida.

- Eu vomitaria no lugar dele se colocassem a mão na minha boca.

- Ah, a "bixa" não come chocolate.

- Comer -- é super light

- A FOTO DA FAMÍLIA

- É para empoleirar o pássaro no porta-retrato? Ele pode ficar aqui?

- Esse meu pássaro tá uma coisa.

- Não foi isso, eu disse que também senti.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A pessoa certa para escrever uma história

Texto de Roger Monteiro sobre o roteiro de Kassandra:



Não é raro as mentes inquietas entrarem em colapso por não possuírem válvulas de escape suficientes para administrar a pressão da própria criatividade. Verdadeiros doidos varridos surgem todos os dias, e por motivos bem menos pitorescos.

Foi por isso que eu não estranhei muito quando o Ulisses apareceu falando sobre esse tal filme de terror para o qual ele estava convidando a mim para escrever o roteiro. Enlouqueceu, o Ulisses, coitado. Sempre soubemos que aconteceria.

O gênero terror me parecia algo tão distante do universo em que o Ulisses opera – e mais distante ainda da minha gama de interesses - que a coisa toda fazia tanto sentido quanto poesia concreta. Afinal, em que um sujeito como eu, que nunca comprou uma casa construída sobre um antigo cemitério indígena, poderia contribuir para um projeto desse calibre? Mas, mesmo com os dados rolando contra, acabei dando trela para o paciente. Ainda bem.

O argumento do Ulisses partia de uma premissa interessante. Ele se esquivava a se tornar um terreno fértil para o clichê e lidava com alguns símbolos que possuíam sua própira mística, ingênua e angustiante. Sendo assim, angústia se tornou a palavra de ordem a ser perseguida. Não o medo fácil, o medo grito, o sujeito com a máscara de hóquei e a motosserra, mas sim aquele sentimento de inquietude que não tem forma, que não tem rosto e que não se pode combater porque simplesmente não se sabe de onde vem. Não se sabe onde está. Não se sabe, sequer, se está.

Kassandra trata desse jardim de espelhos em que convivem, quase harmonicamente, a sanidade e a loucura, não enquanto conceitos abstratos, mas enquanto âncoras que determinam as nossas ações concretas.

Foi nesse ponto que a coisa toda ganhou o meu respeito e começou a fluir. Talvez a minha única contribuição para essa narrativa tenha sido potencializar o seu aspecto repulsivo. O nobre coração de paladino do Ulisses não desce até o lodo em que a minha mente se apraz em chafurdar. Acredito que uma coisa ruim, sempre pode ser pior, uma coisa nojenta, sempre pode ser asquerosa, algo doentio sempre pode ser exacerbado até se confundir com a normalidade. Foi isso que eu fiz, aqui, senhores. Eu piorei as coisas. Para todos.

No fim das contas, o Ulisses não havia enlouquecido, ainda. Ele só precisava de alguém para fazer o trabalho sujo.

E conseguiu.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Eis Kassandra



Nada mais justo do que apresentar a protagonista de Kassandra, a pessoa que dará rosto, vida, expressão para a heroína do filme: Renata Stein (na foto acima).

Renata é atriz e bailarina (além de ser um ser de espírito leve e jovialidade contagiante). Em breve, ela mesma irá escrever aqui sobre a experiência de interpretar um personagem que não tem falas e que precisa passar o que está sentindo apenas com o rosto e o gestual.

Ou, conforme conta o diretor Ulisses: "Renata foi a primeira pessoa a saber do projeto. Se ela não aceitasse viver Kassandra, acho que dificilmente colocaríamos outra atriz no seu lugar".

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Quando três ideias se mesclam

Aqui Ulisses da Motta Costa, diretor do curta Kassandra falando.

Um filme é como um filho com vários pais e mães. Um destes genitores precisa produzir o zigoto original, por assim dizer; ter a chama primeira que começa o projeto. Neste caso específico, esta culpa cabe a mim.

Kassandra surgiu na minha mente durante o inverno, num período de chuvas, em que eu tirava uns dias de folga. Foi quando três ideias diferentes e de longa data, sem nenhuma relação uma com a outra, se misturaram num amálgama surpreendente. Eram as seguintes:

1 - Sempre quis fazer um filme cuja narrativa se fundamentasse no visual. Um filme que tivesse poucas falas. Sempre fui fã do cinema mudo, mas os curtas anteriores que eu dirigi eram um tanto o quanto verborrágicos. Daí que eu achava que o melhor personagem para este tipo de narrativa seria alguém que não pudesse falar.

2 - Por outro lado, sempre quis fazer um filme em preto-e-branco. Brincar com os contrastes, com a luz num estado primitivo onde só há claros e escuros, não cores e tonalidades.

3 - Por fim, a terceira ideia nasceu numa conversa com o compositor de trilhas Chico Pereira. Falávamos o quão difícil era ouvir um música para filmes de terror que não fosse clichê. Meio que resolvemos: um dia, faríamos uma fita do gênero e buscaríamos uma trilha que soasse diferente do que estávamos acostumados a ouvir.

Estas três faíscas, então, foram lascadas juntas certa noite (provavelmente temperadas pela leitura do momento, Nas Montanha da Loucura, do Lovecraft). Como três criaturas meio disformes, elas se uniram de maneira indissociável. Desta geleia primordial começou a brotar ideias -- uma personagem, seu nome, seu cenário, cartas de tarô, bolinhas de yin-yang, fotos de família, quartos vazios, um vulto assustador, uma banheira de sangue.

Enfim, a confusão criativa tomou ordem quando surgiu o rosto da artiz Renata Stein na silhueta de Kassandra. Foi a primeira convidada para o projeto. E ela me disse, assertiva: "eu topo fazer, mas o filme vai ter que sair".

Seu pedido é uma ordem. E, por este blog, vamos contar como anda esta produção.

Sejam bem-vindos.