Paciente: Sexo feminino. Vinte anos.
Estresse pós-traumático. Alucinações visuais.
Avistamentos de um vulto, o "homem grande".
Cartas de tarô, de origem desconhecida.
Muda.
Mora só.
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terça-feira, 28 de outubro de 2014

Três prêmios no CineSerra!



Kassandra fez bonito na premiação da segunda edição do CineSerra (Festival Audiovisual da Serra Gaúcha). Em premiação que ocorreu no dia 26/10, no último domingo, no Teatro do Sesc de Caxias do Sul, o curta recebeu três prêmios na categoria Ficção Estadual (acima).

Levamos para casa as seguintes categorias:

  • Melhor Fotografia para Pablo Chasseraux, Esse é seu segundo prêmio pelo preto-e-branco do filme -- o primeiro foi no Festival de Gramado.
  • Melhor Direção de Arte para Ana Gusson. Kassandra é apenas seu segundo curta assinando a função. O primeiro, o belo A Princesa e a Ervilha, pode ser visto aqui. 
  • Melhor Trilha Sonora para Chico Pereira, que trabalha com o diretor Ulisses da Motta Costa desde o primeiro curta de ambos, O Gritador (2006). Esse é o primeiro prêmio recebido pelo compositor pelo seu trabalho com trilhas. 
A lista de todos os vencedores pode ser vista aqui. Vale ressaltar que Kassandra está 100% de aproveitamento quando selecionado para mostras competitivas!

Abaixo, transcrevemos os textos escritos pelo diretor Ulisses da Motta Costa e pelo compositor Chico Pereira nos seus perfis de Facebook:

Ulisses:

Enfim, na ordem de recebimento: Melhor Trilha para Chico Pereira (e eu sei o quanto que esse prêmio é importante pra ti, meu amigo, e que ele te mostre que o caminho que tu optou seguir está certo), Melhor Direção de Arte para a Ana Gusson (e confesso, Aninha, que fiquei emocionado ao ouvir teu nome ser anunciado: lembrei quando tu me agradeceu dizendo "obrigado por ter acreditado em mim", porque tu achava que eu estava te convidando para ser tipo assistente de arte, e não a encarregada da área toda), Melhor Fotografia (o segundo que o Pablo Chasseraux recebe pelo filme -- e eu acho que ainda é pouco e que ele merece muito mais).
Junto, agradecimentos a todos que atuaram diretamente com os vencedores: Marcelo Santos, Lígia Tiemi Sumi, Victor Hugo Fiuza, Jack Ritter, Ramona Barcellos, as gurias do figurino e maquiagem Isabela Montano Boessio e Giulia De Cesero -- e um super agradecimento ao Roberto Coutinho, por ter auxiliado não só o Chico na trilha em longas gravações no Ampli Studio, como também a Ana nas correrias da arte. Tu é o cara!

Chico:
Há quase 2 anos, tomei uma decisão importantíssima: larguei o jornalismo para me dedicar aos projetos de música. Trabalhos estes que foram aparecendo cada vez mais, até chegar em 2014 e eu poder me orgulhar de estar em duas bandas incríveis, dando aulas de guitarra e violão e compondo músicas para filmes, publicidade e games.

(...)

O resultado de toda esta parte do ônus é que cheguei no final de outubro esgotado, mental e fisicamente. Viver trabalhando com cultura e arte é uma luta infinita, uma briga na qual a gente entra sempre sem armas nas mãos, e um processo constante de ter que provar pra todo mundo que o teu trabalho é bom e merece atenção.

Pois eu havia chegado num ponto em que não estava convencendo nem a mim mesmo disso.

Daí ontem de noite recebo duas mensagens de celular, do Ulisses e do Lefa, me dizendo que eu havia ganho o troféu de melhor trilha sonora no Cine Serra, em Caxias do Sul. E este prêmio me deu uma enorme sensação de alívio.

Prêmios e troféus não são a garantia de que o teu esforço e trabalho são ótimos, maravilhosos e etc. Mas são um baita incentivo, e podem salvar uma carreira.

Por isso, por este prêmio, agradeço:

1 - Ao Ulisses, por sempre me chamar para fazer as trilhas dos filmes que ele dirige (e eu sei que tu não faz isso somente por gostar do meu trabalho, portanto, obrigado demais pela amizade, parceria e incentivo);

2 - Ao Leandro Lefa, pela amizade e afinidade de trabalho que construímos desde "O Gritador";

3 - Ao Roger Monteiro, por dizer as palavras certas nos momentos certos e deixar alguns momentos difíceis e de descrença um tanto quanto mais sarcásticos e divertidos;

4 - À Renata Stein, pela atuação inspirada e por me deixar criar uma voz para a tua personagem;

5 - À minha família, pelo incentivo sempre;

6 - À Cibele, por não me deixar desistir em nenhum momento e por ser minha parceira de vida, te amo;

7 - Ao Roberto, meu grande amigo nesta vida e principal companheiro de trabalho, por todo o esforço colocado na engenharia desta trilha sonora e em todos os trabalhos que fazemos juntos (aliás, eu não poderia estar em melhores companhias ontem à noite quando recebi a notícia do prêmio, Bel e Roberto). Este troféu vai ficar no Ampli Studio , como agradecimento e para nos lembrar, todos os dias, que somos capazes de fazer grandes coisas juntos.

Muito feliz, emocionado, agradecido, e pronto pra seguir este caminho. Mais do que nunca, sei que tô no rumo certo.

Ps: PARABÉNS, Ana Gusson e Pablo Chasseraux, vocês mereceram MUITO!

Ps2: Mariele e Isadora, muito obrigado por toparem meu convite para participar da trilha. Vocês foram DEMAIS, e acho que nunca agradeci vocês o suficiente.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Kassandra recebe oito indicações no FCO



Kassandra é o filme com maior número de indicações no 1º Festival de Cinema Online. Semana passada foram divulgados os finalistas nas doze categorias e nosso filme recebeu nomeações em oito delas. Veja mais aqui. 

Anteriormente, Kassandra tinha recebido onze pré-indicações na primeira fase do festival (em que havia 25 curtas por categoria). A comissão de seleção fez uma nova triagem e diminui para apenas cinco a quantidade dos indicados para cada prêmio. 

Das oito nomeações de Kassandra, uma delas foi obtida via voto de internautas. Na categoria Júri Popular, o curta ficou em segundo lugar, com 562 votos. Para nos ajudar na fase final da votação do Júri Popular, basta entrar neste link aqui e curtir a foto até o dia 13 de novembro.

A premiação acontecerá em Brasília, no dia 15 de novembro.

Abaixo, todas as categorias em que Kassandra concorre. Aqui, a lista de todos os competidores:
  • Melhor Filme
  • Melhor Filme Júri Popular (vote aqui)
  • Melhor Diretor (Ulisses da Motta Costa)
  • Melhor Atriz (Renata Stein)
  • Melhor Fotografia (Pablo Chasseraux)
  • Melhor Som (Roberto Coutinho e Leandro Lefa)
  • Melhor Edição (Alfredo Barros)
  • Melhor Trilha Sonora (Chico Pereira)

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Entrevista: Roberto Coutinho, Leandro Lefa e o som em Kassandra


Hora da dupla que fez o áudio de um filme quase mudo se manifestar. Roberto Coutinho (que também é produtor executivo) e Leandro Lefa (que também é ator) acumularam suas funções originais em Kassandra com a edição e mixagem do som.

Parece simples? Não quando 99% do filme teve seu áudio inteiramente criado em estúdio. Confira a entrevista!

Kassandra é um filme quase sem diálogos, baseado no visual. Como fica o papel do som num projeto assim? Vocês utilizaram som direto e depois recriaram elementos sonoros em estúdio? Comentem um pouco o processo do som de maneira geral.

Roberto Coutinho: No momento em que a narrativa não é conduzida pelo diálogo, o som ganha uma importância maior ainda. Cada elemento sonoro teve que ser pensado e discutido detalhadamente para ajudar o espectador no processo de imersão no universo de Kassandra. Como a protagonista transita entre o mundo real e o criado em sua mente, os sons não tem uma morfologia estanque. Alguns elementos se repetem nestes dois mundos, como objetos caindo ou portas batendo, por exemplo. Mas de uma forma onírica, estes sons se baseiam no mundo físico, sofrendo ligeiras distorções criadas pela mente. E isto os torna estranhos, desconfortáveis e até assustadores! 

Acredito que o maior desafio aqui foi recriar estes elementos sonoros com leves distorções psicoacústicas, convidando o espectador a experimentar a confusão de um desligamento parcial do mundo físico, perdendo-se entre o ambiente captado pelos sentidos e aquele criado pela imaginação.

Leandro Lefa: Como o filme não é conduzido por texto, por falas, as imagens - visuais e sonoras - assumem o primeiro plano da atenção do espectador. Com isso em mente, criamos praticamente todo o som do filme em estúdio. Como os sons são gravados individualmente (passos, respirações, cada objeto...), podemos dar a cada um deles uma característica que funcione no sentido criar o universo dos personagens. Esse objetivo ainda é potencializado pela liberdade total de mixar esses sons na proporção necessária. Assim pudemos criar momentos muito silenciosos de Kassandra, sozinha em seu grande apartamento, e momentos de sons abruptos, ríspidos, que invadem a tranquilidade da personagem - para exemplificar com um dos elementos propostos por Ulisses. Acredito que isso, a música e a montagem de vídeo fazem o filme fluir muito bem.

Leandro, você atuou e recebeu o convite para trabalhar no som depois. Você já tinha acumulado estas duas funções em outros trabalhos, certo? Qual a diferença que você vê em Kassandra em relação a estes projetos, nestas duas áreas?

Lefa: Já fiz isso outras vezes, como no longa Porto dos Mortos ou na websérie Desconectados, mas em Kassandra minha participação no som teve uma proporção maior. Eu sou artista de foley e editor de som, mas estive presente na mixagem do Roberto. Ele, claro, esteve presente em tudo no som e trabalhamos colaborando muito um com o outro o tempo todo. E acho que foi a primeira vez que atuei sem saber que ia trabalhar no som do filme.

O que vocês usaram de inusitado para criar sons no estúdio (os chamados foleys) durante a pós-produção do curta?

Lefa: Ruídos de sala ou foley (nome em inglês, em uma homenagem ao seu criador, Jack Foley), são sons gravados em estúdio e adicionados à banda sonora do filme na pós-produção. Em Kassandra, algumas das poucas falas vêm do som direto. Os demais sons são criados no estúdio.

A maioria deles é feita de maneira bem óbvia. Passos por exemplo: são passos. E o telefone tocando é um telefone tocando.

Mas alguns dos óbvios são divertidos: uma pessoa despencando em cima de um sofá, é uma pessoa despencando em cima de um sofá.

Tem alguns curiosos: o som do passarinho batendo asas na gaiola, é o som de feixes de elástico sendo agitados. Já as patas no poleiro, são baquetas do tipo vassourinha, de nylon, tocando outras baquetas, convencionais. 

Mas com certeza o mais engraçado é o som da brisa que entra pela porta do apartamento: somos eu e o Chico Pereira, compositor da trilha musical, fazendo um “dueto vocal” de som de vento. A execução é no mínimo cômica, mas embora seja usado com muita sutileza, o resultado é muito eficiente. 

Roberto, você também trabalhou com Chico Pereira na trilha sonora. Qual a importância de ter feito essa ponte direta entre o trabalho do som e o da música?

Roberto: É sempre muito prazeroso trabalhar com o Chico na trilha sonora. Ele consegue fazer a leitura dos conceitos no filme e criar um universo musical que complementa muito bem a narrativa. Uma qualidade que vejo em sua composição é que ele não fica na região de conforto do instrumento que domina, no caso a guitarra, ou dos estilos musicais que conhece mais profundamente. A cada novo trabalho, começamos fazendo uma pesquisa de instrumentos, timbres e estilos mais adequados. Depois, o Chico compõe os temas e então trabalhamos em cima disto para criar a música. 

Explique para nós o que é music sound design.

Music sound design é um termo contemporâneo que descende de um conceito antigo. A ideia básica do sound design é criar ou "desenhar" sonoridades novas através sons criados eletronicamente ou utilizando objetos reais de forma não convencional. Isto sempre foi muito explorado no cinema, principalmente em filmes de ficção científica, onde se inventa um som que não existe, como de uma arma laser ou um disco voador, por exemplo. 

Nos últimos anos, com a onipresença da tecnologia digital na produção musical, o conceito de sound design se ampliou e entranhou-se na música também. O uso de instrumentos eletrônicos nos anos 60 e 70 evoluiu para a música contemporânea, permitindo utilizar todo e qualquer som, produzido pelo mais diferente processo imaginável e amparado pela tecnologia digital. Estes timbres são "desenhados" a partir de elementos diversos, como sintetizadores ou sons orgânicos manipulados. Music Sound Design é o nome dado a este trabalho de criar timbres e efeitos sonoros para utilização como matéria-prima em uma composição musical.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Ouça a trilha sonora de Kassandra!

O compositor Chico Pereira disponibilizou no seu Soundcloud boa parte das músicas que ele escreveu para Kassandra.

Os temas disponibilizados são dos principais momentos musicais do filme, incluindo o belo tema principal da personagem. Sugestão do compositor: ouvir com as luzes apagas, num lugar silencioso, com fones de ouvido para captar todos os detalhes.

Ouça abaixo cada uma das faixas (na ordem que aparecem no filme):








Ficha técnica da trilha sonora:

Chico Pereira - Arranjos, Sintetizadores, Music Sound Design, Percussão
Roberto Coutinho - Arranjos Adicionais, Sintetizadores, Music Sound Design
Mariele Giovanaz - Voz
Isadora Raymundo - Violino

Composição: Chico Pereira
Engenharia de Som e Mixagem: Roberto Coutinho
Gravado em Ampli Studio - janeiro e fevereiro de 2013

sexta-feira, 15 de março de 2013

Entrevista: Chico Pereira, compositor

Chico Pereira (à esquerda) gravando a música do filme junto com o engenheiro de som Roberto Coutinho (direita)



Versatilidade é uma das marcas mais visíveis (audíveis?) de Chico Pereira como músico. Ele compõe trilhas sonoras com a mesma facilidade com que faz solos de guitarra ou comanda uma mesa de gravação. 

Compositor, músico e produtor musical, em Kassandra ele teve um árduo trabalho, já que a música começou a ser discutida antes mesmo da primeira versão do roteiro estar pronta. Confira como foi feita a música do curta:

Uma das ideias mais primordiais de Kassandra foi que a trilha sonora fosse diferente, não caindo nos clichês do cinema de suspense e de horror. Como se faz uma trilha assim, sem se apegar aos cânones da música para filmes? 

Chico: Difícil. É muito tentador, não? Tem tanta música boa e bem feita para filmes deste gênero. Me peguei inúmeras vezes, enquanto compunha para Kassandra, homenageando sem querer meus compositores favoritos. É complicado compor para suspense e horror e não "roubar" alguma coisa de Bernard Herrmann, por exemplo. Caras como ele compuseram cânones por algum motivo. E este motivo é que estes compositores são, muitas vezes, a bússola do diretor e do espectador. Este certo poder do compositor de música para filmes é fascinante, ao mesmo tempo em que pode ser uma imensa e assustadora responsabilidade. 

Em certas fases do meu trabalho em Kassandra, precisei me afastar do trabalho por um ou dois dias e "limpar" minha percepção auditiva. Acho que isto me ajudou a chegar no que, acredito, não seja um resultado clichê. Não se trata de escutar e estudar os cânones com atenção e fazer tudo ao contrário. Se trata, sim, de tentar colocar alguns tipos de ideia em diferentes contextos: um timbre diferente, uma linha melodica inesperada, uma pausa onde se esperaria uma percussão.


Por sinal, o filme tem vários planos concebidos desde o início para que a música fosse o destaque. Como você vê a função da música nestes momentos? Como é a relação entre diretor / compositor para chegar a um bom resultado neste tipo de trabalho?

Chico: A música em um filme, mesmo quando está em destaque, está trabalhando para o filme. Isso é a primeira coisa que me vem na cabeça, mesmo que o diretor oriente que o seu trabalho seja o protagonista naquele momento. No caso de Kassandra, o que me fascinou foi a oportunidade de a música ser, literalmente, a voz de uma personagem que não consegue falar. Por isso, tive um cuidado extra ao compor temas e melodias, especialmente para a personagem principal. Como representar uma personagem tão cheia de camadas, tão dúbia? Me ative muito a este tipo de questão.

O papel do diretor em relação ao compositor em um trabalho assim é de um parceria pouco comum. O compositor não conseguiria fazer - falo por mim, principalmente - um trabalho tão focado se o diretor não estivesse quase compondo junto a música do filme. É um trabalho exaustivo, exige muito do psicológico, muito mais do que das habilidades musicais propriamente ditas. O apoio e a orientação do Ulisses foram essenciais neste caso.


Antes mesmo do curta começar a ser filmado, você já estava envolvido com a produção, fazendo uma seleção de referências musicais para serem ouvidos por elenco e equipe. Além disso, você inclusive estava no set, colocando música enquanto as cenas eram filmadas. Qual a importância do seu envolvimento desde esta etapa inicial?

Chico: Sinceramente, não conheço ainda outro método de trabalho. Em todos os filmes que trabalhei, estive no set, em tempo integral na maioria das vezes. Em Kassandra, eu precisava de algo mais do que ler o roteiro e assistir ao corte final do filme. Como já disse, eram camadas demais para representar com música. Difícil captar isso sem estar lá. Agradeço ao Ulisses pela sugestão e pelo privilégio de ver a atuação assombrosa da Renata in loco.

Ao mesmo tempo, gostaria muito de ter a experiência de trabalhar em um filme sem estar no set, trabalhar com um olhar mais de fora - coisa que deve ser concretizada em breve com um projeto novo que está por vir, Luz Natural.



Mixando os 33 canais de música gravados para Kassandra


Fale um pouco do processo de composição e gravação. Como você criou a música e que programas e instrumentos foram usados nas gravações? Junto com o engenheiro de som Roberto Coutinho, você elaborou uma música experimental durante as cenas de pesadelo do filme. Vocês usaram sons de piano tocados de trás para diante, correto?


Chico: Compus em casa, tudo em MIDI. Tocava as linhas de todos os instrumentos em um controlador - para quem nao conhece, é basicamente um teclado que dispara sons de bibliotecas de timbres que estao no computador. Alguns destes timbres que usei nas minhas demos foram usados - sons sintetizados disfarçados de timbres mais orgânicos, o que era uma das minhas propostas conceituais da música, esta mistura de real e irreal.
 
Porém a maioria dos meus sons originais foram substituídos no Ampli Studio, em um trabalho de pesquisa que fiz com o Roberto Coutinho. Só existem dois elementos totalmente orgânicos na música: a voz da cantora Mariele Giovanaz e o violino de Isadora Raymundo (ambas com performances perfeitas para o que precisávamos). Mas, seguindo o conceito proposto, estes dois elementos foram transformados e processados, para que transparecessem um aspecto mais etéreo e melancólico.
 
A questão dos sons de piano é interessante. Já havíamos gravado algo parecido em outro filme, Ninho dos Pequenos, mas em contexto absolutamente diverso. Toquei diretamente nas cordas do piano de parede que fica no Ampli Studio, usando meus dedos, palheta, escova de limpeza, arco de violino e chave de fenda para tirar diferentes sons e efeitos. Quando cheguei na sala técnica, depois de gravar estes sons, o Roberto havia invertido eles e isto casou muito bem com o clima surrealista das cenas de pesadelo. Ficamos realmente assustados com o resultado alcançado.


O primeiro curta no qual você e Roberto estiveram envolvidos na música, Onírico, é de 2003, e desde então vocês trabalharam juntos em várias ocasiões, inclusive em todos os curtas dirigidos por Ulisses da Motta Costa (O Gritador, Ninho dos Pequenos e o vídeo pedagógico Cecília e a Guerra dos Farrapos). Como é esta parceria?


Chico: O Roberto e o irmão dele, Daniel, são meus amigos mais antigos. Nos conhecemos há mais de vinte anos. Tocamos em bandas juntos, gravamos juntos e ainda convivemos bastante nas horas de folga. Então, nos conhecemos muito bem, o que facilita demais o nosso trabalho. Tenho orgulho de dizer que nunca precisamos brigar para fazer alguns belos trabalhos, não só nos filmes, mas também na publicidade e em outros trabalhos musicais. Além disso, graças a este cara consigo hoje gravar minhas músicas em casa, por exemplo. A maioria do que sei da parte mais técnica na área do som e de gravações, aprendi observando ele trabalhar. E o Roberto tem a calma e a concentraçao pra captar muitas coisas que quero fazer e às vezes nao sei como.

Daí, se juntarmos o Ulisses nessa história, "os 3 patetas" complementam seus talentos e conseguimos evoluir muito juntos. Espero que a gente possa seguir sempre nestas parcerias.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Terminando a trilha sonora




Um dos mais antecipados elementos de Kassandra, a música, está na reta final. Composta por Chico Pereira, a trilha tem sido gravada por ele e pelo engenheiro de som Roberto Coutinho desde janeiro, no Ampli Studio. Nesta última semana, foram gravados os últimos instrumentos que faltavam: voz e violino.

A maior parte dos temas musicais foram gravados e reproduzidos em sintetizadores variados; além disso, Chico tocou alguns trechos de piano e, junto com Roberto, gravou algumas experimentações percussivas. Estes takes foram invertidos para reforçar os aspectos psicológicos e surreais do filme.

Mas era consenso que a trilha de Kassandra precisava de mais elementos orgânicos, e por isso Chico resolveu inserir uma voz e um violino -- ambos executados por mulheres. A voz ficou a cargo de Mariele Giovanaz (acima), e Isadora Raymundo gravou o violino (abaixo). Nos dois casos, elas fizeram a melodia do tema principal do filme para momentos distintos da projeção, além de sons experimentais.


Agora, a trilha está na fase de edição e mixagem. Em breve, poderá ser ouvida aqui no blog. Aguarde!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Mágica na trilha sonora


Olá, aqui o diretor Ulisses da Motta Costa de novo. Vim dividir com vocês uma história curiosa que aconteceu ontem, dia 31 de janeiro de 2013, na gravação da trilha sonora de Kassandra.



Pensando hoje, um dia depois, acho que ontem eu vi um dos melhores mais fantásticos de criação artística  que vi desde quando comecei a trabalhar com cinema. E envolve o gênio musical do Chico Machado Pereira (compositor) e do Roberto Coutinho (engenheiro de som).

Sério, foi extraordinário.

Estava então acompanhando uma sessão de gravação da trilha. Boa parte da música já tinha sido gravada para as cenas mais cruciais. Faltava, contudo, alguma coisa mais sólida para as sequências de pesadelo -- inicialmente, usaríamos uma série de infrassons. Música mesmo, só nas cenas passadas na "realidade".

E, para essas cenas de realidade, uma das ideias do Chico era fazer alguns efeitos musicais usando as cordas de um piano dentro da sua caixa acústica, para complementar o arranjo do que já foi gravado. Em palavras simples: o Roberto desmontou o sistema de martelos do piano que há no Ampli Studio e o Chico poderia tocar diretamente nas cordas. Já tínhamos usado essa ideia (de outra maneira, com outro conceito) em outro curta, Ninho dos Pequenos (foto acima - veja o filme aqui).

Chico sentou no piano e começou a testar possibilidades de som -- que são quase infinitas, já que as cordas ficam ressoando por tempo indeterminado, a frequência de cada uma se misturando à outra. E ele começou a brincar. Sem estar gravando nada valendo, nada pensado para o filme. Apenas brincando de tocar as cordas do piano com uma palheta de guitarra. 

A "recreação" durou uns minutos, até ele parar e dizer: "Pronto, fiz música concreta".

Eu estava no estúdio neste momento. Saí dele e entrei na técnica. E eis que noto que o Roberto tinha gravado a "brincadeira" do Chico. Eles já tinham planejado de usar sons de piano invertidos para criar alguns climas mais etéreos, e por isso o Roberto inverteu toda a "música concreta" que o Chico tinha feito e, talvez sem pensar (pensou?), deu play junto com a cena de pesadelo que abre o filme.

O resultado foi assombroso. Não: assustador é a palavra. Em todos os sentidos. 

A loucurada de notas e sons invertidos se sobrepondo fez sentido não só com a ação dos planos, mas fechou até com os cortes da montagem -- naquele tipo de sincronia (sinergia?) que só os Deuses do Cinema proporcionam aos seus devotos. Não só as notas, mas os ruídos que surgiram do nada, como manifestações fantasmagóricas que nos fez questionar de onde diabos tinham saído.

Nós três ficamos abobados. E sentenciamos em conjunto: tínhamos a música para as cenas do pesadelo. Sem querer. Sem planejar. 

A partir daí, foi um festival de experimentação. Tocar as cordas do piano com um arco de violoncelo. Tocá-las com uma chave de fenda. Tocá-las com uma escovinha de limpar unhas. Cada nova tentativa, ao ser invertida, criava música de outra dimensão.

Gurizada, cês são foda.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Finalizando Kassandra

Terminar um filme é sempre um processo delicado -- normalmente mais demorado que o desejado e que precisa ser trabalhado em várias frentes simultâneas. Com Kassandra não é diferente, claro. E damos um tempo nas entrevistas com elenco e equipe para falar um pouco sobre o atual estágio de desenvolvimento do nosso filme:

Montagem: Os cortes do filme foram feitos pelo premiado e requisitado Alfredo Barros. Por conta de seu envolvimento na campanha eleitoral em Porto Alegre, ele só pôde se dedicar à edição a partir de outubro. Em encontros semanais com o diretor Ulisses da Motta Costa, Alfredo encerrou a montagem no dia 18 de dezembro de 2012 (na foto abaixo, os dois após o término dos trabalhos).

Ulisses da Motta Costa (esq) e Alfredo Barros terminando a montagem

O filme foi majoritariamente montado na ilha de edição da Atama Filmes, em Porto Alegre. No total, Kassandra teve sete cortes (são oito, na verdade, mas o último tem de diferente apenas tempo a mais para os créditos). O principal desafio era dar ritmo ao vasto material filmado (cerca de 150 planos diferentes), de forma que funcionasse em termos de drama e suspense, e fazer as adaptações necessárias na narrativa (incluindo a remoção de elementos que atravancavam o desenvolvimento e a compreensão do filme). Um dos cortes chegou a ter quase meia hora de duração; agora, Kassandra tem pouco mais de 21 minutos de duração, sem os créditos finais.

Som: Desde o início do projeto, sabia-se que o som seria um dos trabalhos mais exaustivos em Kassandra. Afinal de contas, o filme quase não tem diálogos e todos os ruídos e sons precisam ser produzidos do zero. Para a tarefa, o engenheiro de som Roberto Coutinho e Leandro Lefa (um dos atores do filme que também trabalha como foley artist) têm passado os primeiros dias de janeiro dentro do Ampli Studio, em São Leopoldo, deixando a criatividade fluir. 

A primeira etapa, a gravação dos foleys (os sons cotidianos produzidos pelos personagens, como passos, por exemplo) está quase concluída. Pode parecer fácil, mas achar o som correto para cada situação é sempre um desafio -- e os pés descalços de Kassandra (para ficar apenas nos passos) requerem sons sutilmente diferentes para cada cena. A segunda etapa, a gravação de ADRs (sigla em inglês para "substituição de diálogos", ou seja, os sons de fala e respiração dos atores) começa na semana que vem, junto com a edição de som, e envolvem todo o elenco do filme. 

Música: O compositor Chico Pereira há meses coleciona referências e grava ideias para a trilha de Kassandra. Inicialmente, ele fará demos com sons sintetizados e em arranjos simples (processo atualmente em andamento). Estas músicas preliminares serão colocadas no filme para ver quais funcionam e quais precisam ser melhoradas.

A partir daí, começa a se registrar a trilha valendo. Esta demanda começará ainda em janeiro, para estar pronta em fevereiro. As sessões serão gravadas também no Ampli Studio, em São Leopoldo. Falaremos mais detalhadamente sobre trilha sonora em posts futuros.

Finalização: Os mais novos participantes da equipe de Kassandra vêm para fazer um delicado trabalho: corrigir a luz e colocar, finalmente, a imagem do filme em preto-e-branco (os planos foram registrados em cores). A colorista Lígia Tiemi Sumi, da Galo de Briga Filmes, terá este encargo: fazer a marcação de luz do curta inteiro e, a partir daí, ressaltar os contrastes entre as áreas escuras e claras de cada take. O desafio é o mesmo que a fotografia, direção de arte e figurino tiveram que enfrentar anteriormente: pensar não em termos de cor, mas apenas em termos de luz. 

Com tudo isso pronto, o que falta? Juntar todos estes elementos. E Kassandra terá nascido.


quinta-feira, 15 de março de 2012

Música no set

Havia uma certeza sólida ainda nas primeiras conversas sobre Kassandra, antes mesmo de Roger Monteiro apresentar a primeira versão do roteiro: as filmagens teria música ambiente. 

O filme teria poucos diálogos e a maioria da sua sonorização acontecerá na pós-produção, o que permitia a presença de música no set sem atrapalhar no som ambiente. A ideia foi bem recebida pela equipe como um todo, mas especialmente pelo compositor Chico Pereira (foto), que fez um playlist para rodar não só enquanto as cenas eram feitas, mas também nos intervalos. Renata Stein igualmente apreciou a ideia: pôde escolher as próprias músicas para as cenas mais emotivas, auxiliando a sua atuação. 

Abaixo, dois exemplos das músicas tocadas nas primeiras filmagens de Kassandra. A primeira é uma peça de Phillip Glass, uma das referências coletadas por Chico, e a segunda é o tema do filme Réquiem Por Um Sonho, composta por Clint Mansell e que Renata escolheu para tocar repetidamente em alguns momentos da filmagem:

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Quando três ideias se mesclam

Aqui Ulisses da Motta Costa, diretor do curta Kassandra falando.

Um filme é como um filho com vários pais e mães. Um destes genitores precisa produzir o zigoto original, por assim dizer; ter a chama primeira que começa o projeto. Neste caso específico, esta culpa cabe a mim.

Kassandra surgiu na minha mente durante o inverno, num período de chuvas, em que eu tirava uns dias de folga. Foi quando três ideias diferentes e de longa data, sem nenhuma relação uma com a outra, se misturaram num amálgama surpreendente. Eram as seguintes:

1 - Sempre quis fazer um filme cuja narrativa se fundamentasse no visual. Um filme que tivesse poucas falas. Sempre fui fã do cinema mudo, mas os curtas anteriores que eu dirigi eram um tanto o quanto verborrágicos. Daí que eu achava que o melhor personagem para este tipo de narrativa seria alguém que não pudesse falar.

2 - Por outro lado, sempre quis fazer um filme em preto-e-branco. Brincar com os contrastes, com a luz num estado primitivo onde só há claros e escuros, não cores e tonalidades.

3 - Por fim, a terceira ideia nasceu numa conversa com o compositor de trilhas Chico Pereira. Falávamos o quão difícil era ouvir um música para filmes de terror que não fosse clichê. Meio que resolvemos: um dia, faríamos uma fita do gênero e buscaríamos uma trilha que soasse diferente do que estávamos acostumados a ouvir.

Estas três faíscas, então, foram lascadas juntas certa noite (provavelmente temperadas pela leitura do momento, Nas Montanha da Loucura, do Lovecraft). Como três criaturas meio disformes, elas se uniram de maneira indissociável. Desta geleia primordial começou a brotar ideias -- uma personagem, seu nome, seu cenário, cartas de tarô, bolinhas de yin-yang, fotos de família, quartos vazios, um vulto assustador, uma banheira de sangue.

Enfim, a confusão criativa tomou ordem quando surgiu o rosto da artiz Renata Stein na silhueta de Kassandra. Foi a primeira convidada para o projeto. E ela me disse, assertiva: "eu topo fazer, mas o filme vai ter que sair".

Seu pedido é uma ordem. E, por este blog, vamos contar como anda esta produção.

Sejam bem-vindos.