Paciente: Sexo feminino. Vinte anos.
Estresse pós-traumático. Alucinações visuais.
Avistamentos de um vulto, o "homem grande".
Cartas de tarô, de origem desconhecida.
Muda.
Mora só.
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quinta-feira, 8 de maio de 2014

Elenco e equipe: todas as entrevistas

No alto: Ulisses da Motta Costa, Roger Monteiro, Suzana Witt, Ana Gusson; No meio: Luis Franke, Leandro Lefa, Giulia De Cesero e Isabela Boessio; Embaixo: Alfredo Barros, Maico Silveira, Roberto Coutinho, Chico Pereira. No centro: Renata Stein


Confiram aqui as entrevistas com os membros de elenco e equipe de Kassandra e entenda melhor o trabalho de cada um deles:

Ulisses da Motta Costa, diretor: "Os filmes que tu cria são uma espécie de auto-purificação".

Renata Stein, "Kassandra": "Uma coisa que eu não queria fazer era atuar em um filme de terror".

Roger Monteiro, roteirista: "Mas aconteceu de o diretor ser um tremendo mentiroso".

Luis Franke, "Homem Grande": "Os desafios nos fazem crescer".

Leandro Lefa, "Vizinho" e Som: "Podiam me convidar pra fazer um vendedor de casquinha que eu topava".

Alfredo Barros, Montador: "Na verdade, foi muito mais divertido do que eu imaginava".

Maico Silveira, "Terapeuta": "Isso é uma das coisas difíceis de ser um ator habituado ao palco".

Suzana Witt, "Prostituta": "Queria atuar em um dos 'nossos' -- dá pra chamar de nossos? -- filmes".

Ana Gusson, diretora de arte: "Confesso que duvidei no início, achei que fosse brincadeira".

Chico Pereira, música: "A música é, literalmente, a voz de uma personagem que não consegue falar".

Isabela Boessio, figurino e maquiagem: "Kassandra tem, sim, um teor sexual".

Giulia De Cesero, figurino e maquiagem: "Os makes devem aos halloweens que já passei".

Roberto Coutinho, som e produção: "Os sons não têm uma morfologia estanque". 


quinta-feira, 13 de março de 2014

Entrevista: Ulisses da Motta Costa

O diretor de Kassandra, Ulisses da Motta Costa, concedeu esta entrevista foi publicada para o site DarkVeins, conduzida por Lady of Sorrow (que escreveu uma crítica sobre o filme em italiano e em inglês). A entrevista original, em inglês também,  pode ser lida aqui.


Abaixo, segue a tradução para o português, onde o diretor fala sobre as suas origens, sobre os motivos pelos quais fez Kassandra, sua relação com o cinema italiano e sobre Zé do Caixão -- além de outros projetos:

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Entrevista com o cineasta brasileiro Ulisses da Motta Costa, que dirigiu Kassandra, o curta em preto-e-branco que foi premiado no 41º Festival de Gramado na sessão Curta-metragem Gaúcho com Melhor Fotografia.

Ulisses fala de seus trabalhos, paixões, sobre crowdfunding e projetos futuros.

L: Olá, Ulisses, conte-nos sobre você. Onde você cresceu? Qual sua história? Quando e como você começou a trabalhar com cinema? 

U: Vou tentar ser o mais breve o possível: eu nasci e fui criado no sul do Brasil, no interior. Eu morava numa chácara até completar 22 anos, numa pequena cidade chamada Montenegro, no estado do Rio Grande do Sul. Como a maior parte dos brasileiros, sou o resultado de uma miscigenação muito especial, então sou parte português, parte espanhol, parte árabe, parte guarani, parte alemão, parte francês e, claro, parte italiano! Um lado inteiro da minha família ainda usa o sobrenome do nosso ancestral italiano, Manfredini.

Enfim, sobre o cinema: minha brincadeira favorita quando eu era criança era imaginar filmes na minha cabeça. Havia um velho cinema na cidade, mas era longe de casa e o freqüentei poucas vezes durante minha infância. Então, quanto minha mãe finalmente conseguiu dinheiro para comprar um videocassete, no início dos anos 90, eu comecei a assistir a tudo que eu podia. Não levou muito tempo para que eu decidir que queria ser um diretor de cinema, o que era um problema então: a produção de cinema brasileiro estava vivendo a pior crise da sua história, com apenas um longa sendo lançado por ano. As pessoas costumavam dizer na época que nossa cinematografia estava quase morta. As únicas universidades com graduação em cinema eram no Rio de Janeiro e São Paulo, a mais de mil quilômetros de distância de onde eu vivia.

Então, eu tive que esperar ficar adulto; esperar para me mudar para São Leopoldo, uma cidade maior e próxima da capital do estado; esperar que a produção de cinema crescesse de novo no Brasil; esperar que as câmeras digitais finalmente chegassem na indústria para finalmente, em 2004, com 25 anos de idade, eu começasse a produzir meu primeiro curta, O Gritador. E ainda assim esse filme de apenas 15 minutos levou quase três anos para ficar pronto! Mas desde então, eu sempre trabalhei com cinema, às vezes como crítico, às vezes como professor, às vezes como produtor, diretor e roteirista em pequenos projetos.  

Ulisses (ao centro) dirigindo Leandro Lefa e Renata Stein em Kassandra


L: Você é o diretor de Kassandra, um curta de terror em preto-e-branco. Você fez o filme para você mesmo ou tinha um público em mente enquanto o escrevia?

U: Eu acho que sempre fazemos os filmes que queremos ver. Ninguém dedicará dias, meses, anos para fazer algo que não queira assistir, eu acho. Mas eu também acredito que os filmes que tu cria são uma espécie de auto-purificação, ou no mínimo uma auto-fantasia. Os filmes podem ser tanto uma representação de como o mundo poderia ser como uma forma de terapia intensiva. Kassandra é um filme do segundo tipo. Mas no momento em que eu decido que eu farei um filme, eu começo a pensar no público. Nós usamos bastante a expressão “espectador”, uma única pessoa na audiência. Alguém que tu não conhece, uma mulher ou um homem sem rosto. Eu gosto de pensar que esta pessoa em particular só quer fazer parte de uma história, seja ela curta ou épica. Então, eu quero que o espectador acompanhe os personagens e a história que estamos contando. Mesmo se for uma história difícil.

E eu sempre quis trabalhar em preto-e-branco. Quando a ideia do filme explodiu na minha cabeça, já era sem cor. Desde o início era uma história para ser contatada apenas com luz e sombras.

L: Seu filme lida com transtornos de ansiedade (stress pós-traumático, mutismo e agorafobia). Por quê? 

U: Bem, como eu disse, um filme pode ser uma purificação para o seu criador... Eu cuidei de uma pessoa com problemas psiquiátricos por alguns anos. Foi uma vivência complicada, dolorosa e intensa para nós dois. As pessoas costumam me perguntar, depois que veem o filme: como você tem essas ideias? Claro, Kassandra não conta uma história real ou algo assim. Talvez seja a vingança que nunca aconteceu na vida real, hehehehe. Mas essas ideias vieram da observação e da minha experiência do que acontecia com alguém que eu era próximo.

L: Fale sobre o título. Por que “Kassandra"?

U: Digamos que a ideia de Kassandra tomou a minha mente num ataque massivo e coordenado. A maior parte dos conceitos do filme nasceu ao mesmo tempo, numa noite de inverno, incluindo o nome da protagonista. Ela teria visões nas quais ninguém acredita serem reais, então eu lembrei da Cassandra da mitologia grega, uma sacerdotisa que foi amaldiçoada em prever o futuro e nunca ter alguém que acreditasse nas suas previsões. A letra K no nome é uma referência a este personagem lendário, apesar de não ser uma modernização ou adaptação do mito. 

As filmagens de Kassandra



L: Kassandra teve vários apoiadores. O que você pensa a respeito do crowdfunding?

U: É algo maravilhoso. A prova que é importante é o fato de que, mais e mais, cineastas e artistas já conhecidos pela mídia e pelo público e com recursos disponíveis estão preferindo o crowdfunding, porque ele os liberta da burocracia das empresas e dos governos. O artista não precisa negociar para ter sua independência criativa, não precisa fazer o jogo de interesses dentro de um estúdio ou de uma gravadora. O público decide o que vale a pena receber apoio. É como uma “seleção natural artística”, por assim dizer. Claro, se tu é um artista independente, ou iniciante, não dá pra sair pedindo um milhão de dólares. Tu tem que encontrar o caminho com mil dólares. Mas são mil dólares vindos de pessoas que acreditam em ti, ou no mínimo acreditam no projeto. Este tipo de apoio é mais importante do que o dinheiro em si.

L: Você fez algum outro filme antes deste? Se sim, quantos outros? Pode falar sobre eles? E sobre O Gritador?

U: Sim, Kassandra é o meu terceiro curta de ficção. Eu não gosto de me repetir, porque eu tenho interesse em vários assuntos. E eu também gosto de diferentes tipos de cinema e seus incontáveis gêneros. Então, O Gritador (2006) era para ser uma espécie de filme de aventura, mas alguns o consideram um terror “light”. Meu segundo curta, Ninho dos Pequenos (2009), é completamente diferente: é um drama familiar com apenas uma locação e duas atrizes falando o tempo todo.

O Gritador foi um projeto maluco não apenas para um diretor iniciante, mas para uma equipe iniciante também. Como eu disse antes, demorou quase três anos para ser feito. Eu dividi o roteiro e a direção com meu amigo Carlos Porto. O filme é sobre uma lenda folclórica do nosso estado. É uma espécie de alma penada que vagueia à noite nas matas e nos campos. Se tu responder ao seu grito, o fantasma se aproxima mais e mais de ti. Bem, nossas locações eram a mais de 200 km da nossa cidade, em lugares difíceis de atingir: quebramos pelo menos dois carros durante pesquisa e filmagens. Também queríamos usar efeitos visuais, com atores na frente de um fundo azul e composições com desenhos feitos à mão e elementos em computação gráfica. Tudo isso, claro, sem dinheiro. Tem algumas coisas que só a ingenuidade pode explicar... Se vocês quiserem ver, tem no Youtube.

L: O que você acha da crescente popularidade dos filmes independentes? 

U: Eu creio que é um fenômeno inevitável. É mais fácil aprender sobre diferentes tipos de expressão artística na Internet. Então, se tu te interessa sobre certo assunto, dá para pesquisar a respeito dele infinitamente. Tu sempre vai achar algo novo. Tu pode te aprofundar em coisas que não têm acesso à grande mídia. Isso inclui não apenas filmes, mas música, artes visuais, fotografia...

L: Quais são suas maiores influências? Qual é o seu Top 5 de favoritos de todos os tempos?

U: Hum, é difícil responder... Eu acho que tudo que assistimos pode ser uma influência. Eu sinto que Bruce Lee está no meu DNA artístico tanto quanto Fritz Lang. Mas eu tento usar alguns diretores como exemplo para mim. Digamos que Spielberg me ensinou a estar cercado de colaboradores talentosos, que Kubrick me ensinou a nunca me repetir, que Hitchcock me ensinou a importância de planejar previamente o que será filmado e que Werner Herzog me ensinou que tu tem que ser um filho da puta corajoso para fazer cinema. Isso, claro, se eu aprendi alguma coisa.

Sobre o Top 5... Vai parecer esquizofrênico, eu garanto: Ben-Hur (1959), Antes do Amanhecer (1995), Os Caçadores da Arca Perdida (1981), Metrópolis (1927) e Três Homens em Conflito (1966). E o meu cineasta favorito de todos os tempos é Akira Kurosawa.

L: Qual é o seu cineasta italiano de terror favorito?

U: Deixe-me primeiro contar sobre minha relação com o cinema italiano! Quando eu era garoto, havia um monte de filmes italianos passando na televisão, que eu não sabia serem italianos (porque, claro, eles eram dublados em português). Então, eu passava as tardes de sábado assistindo a velhos filmes peplum, como Os Argonautas (1960) ou Os Últimos Dias de Pompeia (1959). E, claro, alguns filmes de terror à noite, como A Ilha dos Homens-Peixes. Eu vi várias vezes em VHS uma coprodução Brasil-Itália dos anos 80, Perdidos no Vale dos Dinossauros (também conhecido como Cannibal Ferox 2). Quando eu decidi que seria cineasta, eu comecei a pesquisar sobre cinema em livros e revistas. Naquela época, tudo que eu encontrava sobre filmes italianos eram coisas sobre Fellini, Antonioni e Visconti, ou sobre o Neorrealismo. Não havia menção aos giallo, aos peplum ou aos western-spaghettis, Mario Bava, Ruggero Deodato ou Luigi Cozzi. Apenas anos mais tarde eu fiquei sabendo deste universo fantástico. Só aí descobri que aqueles filmes profundamente divertidos que eu via eram italianos.

Meu artista italiano de terror favorito não é um cineasta, é uma banda! Eu adoro o trabalho do Goblin em Suspiria, Prelúdio para Matar e Zombie – O Despertar dos Mortos. O que eles conseguiram atingir é totalmente único em termos de trilha sonora.

A refinada formação do nosso diretor em filmes italianos....

L: José Mojica Marins é um adorado cineasta brasileiro. O que você acha do seu personagem Zé do Caixão, criado para o filme À Meia-Noite Levarei Sua Alma?

U: Mojica é um colosso. Ele é uma grande influência não apenas para os fãs brasileiros de terror, mas para todos os cineastas do país. Ele é um cara sem nenhuma educação formal sobre cinema e foi simplesmente revolucionário para o seu tempo, especialmente nos anos 60. Ele foi perseguido e alguns dos seus trabalhos foram censurados durante a Ditadura Militar. Um dos seus filmes mais intrigantes, O Despertar da Besta, foi feito graças a seus amigos, que lhe doaram película. Ainda assim, o original foi apreendido pelas autoridades. O filme só viu a luz do dia poucos anos atrás.

Ele também fez tudo que era tipo de filme, não só terror. Fez desde fitas experimentais a faroestes. Ele também dirigiu filmes pornôs nos anos 80 para sobreviver. Sobre o personagem, Zé do Caixão, é um dos maiores ícones do horror de todos os tempos. Vocês sabem como ele foi criado? Mojica sonhou que um homem de capa e cartola o levava para ver a sua própria sepultura. Ele acordou assustado feito o inferno e decidiu fazer um filme sobre esse homem assustador. Foi assim que ele fez À Meia-Noite Levarei Sua Alma, um filme de terror incrível e poderoso para os padrões da época.

L: Quem é o melhor diretor brasileiro em atividade hoje?

U: No gênero terror, o maior nome independente é Rodrigo Aragão, que recentemente fez uma trilogia de zumbis e monstros. Meu amigo Davi de Oliveira Pinheiro fez uma curiosa mistura de gêneros em Porto dos Mortos. Além do universo de fantasia e horror, tem vários bons cineastas, tais como Fernando Meirelles, Afonso Poyart, José Padilha (que recentemente dirigiu a nova versão de Robocop) e Jorge Furtado, que trabalha no meu estado e é uma grande referência para mim desde os anos 90.

L: Quem são os seus autores de horror favoritos?

U: Eu confesso: nunca me interessei muito em literatura de horror. Mas a idéia para Kassandra surgiu quando eu lia Nas Montanhas da Loucura. Como preparação para o filme, eu devorei os trabalho de H.P. Lovecraft. E fiz o elenco e a equipe também lerem alguns dos seus contos!

L: Qual seu próximo projeto? 

U: Eu tenho muitos projetos! Quem não tem? Eu vou começar a montagem do meu novo curta, Luz Natural, neste mês. É um trabalho experimental totalmente filmando sem luz artificial e com apenas dois atores em cena, conversando depois de terem transado. Definitivamente não é um filme de terror! Eu estive no Rio de Janeiro recentemente, trabalhando como assistente de direção para o meu amigo Victor Fiuza num drama social chamado Os Olhos de Cecília. Filmamos boa parte deste trabalho na favela, foi uma experiência realmente intensa. Também estou produzindo Pelos Velhos Tempos, um roteiro de Roger Monteiro, o cara que escreveu Kassandra, e que será dirigido por Pedro Barbosa.

E tem os longas. Um destes projetos é uma ficção-científica dividida em episódios, todos sobre o mesmo universo, com seis diretores diferentes (incluindo eu). O título provisório é O Fim da História. Outro projeto é O Pecado da Carne, uma adaptação da peça O Linguiceiro da Rua do Arvoredo, que por sua vez é baseada na história do primeiro serial killer brasileiro, um homem que fazia linguiça da carne das suas vítimas e as vendia para toda uma cidade no século XIX.

Ah, sim. O mesmo Roger Monteiro está tentando me convencer a fazer outro filme de terror, mas com mais violência e gore. Kiumba é o nome e é sobre uma entidade afro-brasileira que é convocada quando se quer vingança. Mas eu estou pensando sobre isso ainda...

L: Deixe uma mensagem para a comunidade DarkVeins!

U: Quero agradecer a oportunidade e de desejar que o DarkVeins cresça mais e mais. É um espaço virtual incrível. Saudações do Brasil para todos!

L: Obrigada, Ulisses! Boa sorte para você!

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Entrevista: Roberto Coutinho, Leandro Lefa e o som em Kassandra


Hora da dupla que fez o áudio de um filme quase mudo se manifestar. Roberto Coutinho (que também é produtor executivo) e Leandro Lefa (que também é ator) acumularam suas funções originais em Kassandra com a edição e mixagem do som.

Parece simples? Não quando 99% do filme teve seu áudio inteiramente criado em estúdio. Confira a entrevista!

Kassandra é um filme quase sem diálogos, baseado no visual. Como fica o papel do som num projeto assim? Vocês utilizaram som direto e depois recriaram elementos sonoros em estúdio? Comentem um pouco o processo do som de maneira geral.

Roberto Coutinho: No momento em que a narrativa não é conduzida pelo diálogo, o som ganha uma importância maior ainda. Cada elemento sonoro teve que ser pensado e discutido detalhadamente para ajudar o espectador no processo de imersão no universo de Kassandra. Como a protagonista transita entre o mundo real e o criado em sua mente, os sons não tem uma morfologia estanque. Alguns elementos se repetem nestes dois mundos, como objetos caindo ou portas batendo, por exemplo. Mas de uma forma onírica, estes sons se baseiam no mundo físico, sofrendo ligeiras distorções criadas pela mente. E isto os torna estranhos, desconfortáveis e até assustadores! 

Acredito que o maior desafio aqui foi recriar estes elementos sonoros com leves distorções psicoacústicas, convidando o espectador a experimentar a confusão de um desligamento parcial do mundo físico, perdendo-se entre o ambiente captado pelos sentidos e aquele criado pela imaginação.

Leandro Lefa: Como o filme não é conduzido por texto, por falas, as imagens - visuais e sonoras - assumem o primeiro plano da atenção do espectador. Com isso em mente, criamos praticamente todo o som do filme em estúdio. Como os sons são gravados individualmente (passos, respirações, cada objeto...), podemos dar a cada um deles uma característica que funcione no sentido criar o universo dos personagens. Esse objetivo ainda é potencializado pela liberdade total de mixar esses sons na proporção necessária. Assim pudemos criar momentos muito silenciosos de Kassandra, sozinha em seu grande apartamento, e momentos de sons abruptos, ríspidos, que invadem a tranquilidade da personagem - para exemplificar com um dos elementos propostos por Ulisses. Acredito que isso, a música e a montagem de vídeo fazem o filme fluir muito bem.

Leandro, você atuou e recebeu o convite para trabalhar no som depois. Você já tinha acumulado estas duas funções em outros trabalhos, certo? Qual a diferença que você vê em Kassandra em relação a estes projetos, nestas duas áreas?

Lefa: Já fiz isso outras vezes, como no longa Porto dos Mortos ou na websérie Desconectados, mas em Kassandra minha participação no som teve uma proporção maior. Eu sou artista de foley e editor de som, mas estive presente na mixagem do Roberto. Ele, claro, esteve presente em tudo no som e trabalhamos colaborando muito um com o outro o tempo todo. E acho que foi a primeira vez que atuei sem saber que ia trabalhar no som do filme.

O que vocês usaram de inusitado para criar sons no estúdio (os chamados foleys) durante a pós-produção do curta?

Lefa: Ruídos de sala ou foley (nome em inglês, em uma homenagem ao seu criador, Jack Foley), são sons gravados em estúdio e adicionados à banda sonora do filme na pós-produção. Em Kassandra, algumas das poucas falas vêm do som direto. Os demais sons são criados no estúdio.

A maioria deles é feita de maneira bem óbvia. Passos por exemplo: são passos. E o telefone tocando é um telefone tocando.

Mas alguns dos óbvios são divertidos: uma pessoa despencando em cima de um sofá, é uma pessoa despencando em cima de um sofá.

Tem alguns curiosos: o som do passarinho batendo asas na gaiola, é o som de feixes de elástico sendo agitados. Já as patas no poleiro, são baquetas do tipo vassourinha, de nylon, tocando outras baquetas, convencionais. 

Mas com certeza o mais engraçado é o som da brisa que entra pela porta do apartamento: somos eu e o Chico Pereira, compositor da trilha musical, fazendo um “dueto vocal” de som de vento. A execução é no mínimo cômica, mas embora seja usado com muita sutileza, o resultado é muito eficiente. 

Roberto, você também trabalhou com Chico Pereira na trilha sonora. Qual a importância de ter feito essa ponte direta entre o trabalho do som e o da música?

Roberto: É sempre muito prazeroso trabalhar com o Chico na trilha sonora. Ele consegue fazer a leitura dos conceitos no filme e criar um universo musical que complementa muito bem a narrativa. Uma qualidade que vejo em sua composição é que ele não fica na região de conforto do instrumento que domina, no caso a guitarra, ou dos estilos musicais que conhece mais profundamente. A cada novo trabalho, começamos fazendo uma pesquisa de instrumentos, timbres e estilos mais adequados. Depois, o Chico compõe os temas e então trabalhamos em cima disto para criar a música. 

Explique para nós o que é music sound design.

Music sound design é um termo contemporâneo que descende de um conceito antigo. A ideia básica do sound design é criar ou "desenhar" sonoridades novas através sons criados eletronicamente ou utilizando objetos reais de forma não convencional. Isto sempre foi muito explorado no cinema, principalmente em filmes de ficção científica, onde se inventa um som que não existe, como de uma arma laser ou um disco voador, por exemplo. 

Nos últimos anos, com a onipresença da tecnologia digital na produção musical, o conceito de sound design se ampliou e entranhou-se na música também. O uso de instrumentos eletrônicos nos anos 60 e 70 evoluiu para a música contemporânea, permitindo utilizar todo e qualquer som, produzido pelo mais diferente processo imaginável e amparado pela tecnologia digital. Estes timbres são "desenhados" a partir de elementos diversos, como sintetizadores ou sons orgânicos manipulados. Music Sound Design é o nome dado a este trabalho de criar timbres e efeitos sonoros para utilização como matéria-prima em uma composição musical.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Entrevista: Renata Stein, Kassandra em pessoa



Enfim, a entrevista com a atriz que deu vida para Kassandra, Renata Stein. Este é o primeiro curta da jovem atriz (antes, ela tinha feito um clipe e o piloto de uma websérie). Apesar da pouca idade experiência e idade (tinha19 quando começou a ensaiar para Kassandra), Renata carrega o espectador para dentro do filme.

O que mais te impressionou no filme? O conceito, o roteiro, a produção, a direção, a fotografia?

Pergunta difícil essa. Posso só dizer que me apaixonei por fazer parte do curta-metragem e da equipe de Kassandra?


Mas pelo quê você se apaixonou no projeto?

Pela dedicação e alegria da equipe de produção, pela parceria e a organização da direção, pela magia que é a fotografia preto e branco, que deixa tudo tão bonito, por poder dar vida a um roteiro tão cheio de mistérios e experienciar a personagem Kassandra.

O diretor Ulisses da Motta Costa disse que você foi a primeira pessoa que ele convidou para o filme. O que você achou de ser a protagonista de um filme de terror?


Achei irônico, muito irônico. Quando estava a sós com meus pensamentos eu sempre pensava que, como atriz, uma das coisas que eu não iria querer fazer era atuar em um filme de terror. E lá veio o Ulisses com a proposta do filme. Sou uma pessoa bem medrosa para certas coisas, não achei divertida a proposta. Só aceitei por três motivos: era o Ulisses dirigindo, a equipe e o elenco eu sabia que iriam ser muito bacanas e porque eu gosto muito de atuar.

Kassandra é um papel denso e bastante complexo, com várias camadas. Onde você buscou inspiração para compor a personagem, com todas as diferentes reações que ela precisava mostrar?


Eu não diria inspiração não, porque inspiração me remete a algo divino. Eu diria que foram muitos encontros, discussões, ensaios no apartamento onde seria o set e trabalho em grupo. Foi o trabalho durante alguns bons dias que me ajudou a conseguir criar Kassandra. Foi a minha confiança na equipe e a confiança da equipe em mim. E eu ainda acho que ela não foi criada 100%. Depois das gravações fico pensando o quanto ainda eu poderia ter feito. Não é inspiração não, é trabalho e entrega total antes e depois do “ação”.

O que foi mais difícil na hora de atuar? Foi o fato de que a personagem é muda e, portanto você não tinha o suporte da voz para poder atuar?


Sei que essa parece ser a parte mais difícil, mas eu sempre gostei da ideia de ter que atuar com a potência total no corpo e nos olhos. É claro, isso é difícil, mas é maravilhoso, ainda mais porque a câmera pode capturar os mínimos detalhes. E falar, acreditem, é bem complicado também. O mais difícil foi a solidão do set entre as mudanças de planos. Cada pessoa da equipe está focada em sua função para que tudo ocorra bem, e como na maioria das vezes eu era a única atriz, me sentia um pouco sozinha. Toda a vez que o Ulisses falava “corta” e todos começavam a se organizar para o outro plano, eu tinha que tentar me manter o mais concentrada possível para não perder o corpo, o olhar, a atmosfera que tinha se criado. Ah, é bem difícil.

Você passou por um processo de preparação bastante intenso para os moldes um curta-metragem, com exercícios, leitura de roteiro, material de referência para ler e ouvir. O quanto estas atividades ajudaram você? Alguns exercícios vocês repetiam no set, certo?


Estes exercícios foram essenciais. Poder trocar com a equipe, com o elenco, é muito produtivo e me deixou mais segura e a vontade para ir descobrindo “as camadas de Kassandra”, e de toda a sua história. Sim, nos dias das gravações repetimos os exercícios físicos por serem exercícios que dão voz ao corpo, já que era essa a parte que precisava ser muito forte na atuação para fazer Kassandra.

Que tipos de exercício vocês fizeram para ajudar na concepção do personagem? Você não podia falar durante estas atividades, certo? Como foi essa sensação?

Nós tivemos vários momentos, como reunião com todo o elenco conversando sobre a história de Kassandra, ouvindo a opnião dos atores e o diretor nos dando alguns materiais de referência para leitura ou para assistir. Outro momento foi a leitura do roteiro e mais conversas, onde o diretor me interrogou sobre algumas questões como do que eu tinha medo, o que me dava nojo, entre outras. A partir daí, passamos para a parte prática de exercíos para cliar a atmosfera de medo de Kassandra. Trabalhamos eu e o Maico com exercícios em que ele tentava me tocar e eu tinha que repelir e fugir, e outro que ficávamos percorrendo com o nosso corpo os espaços vazios do colega. Para mim, o primeiro foi bem bom e surgiram efeitos importantes para a concepção de cena e dos personagens. Outro exercício, que foi feito só comigo, e que foi importante, apesar de me deixar muito nervosa, foi lidar com o desconhecido, que para mim no caso era o escuro. Eu ficava deitada no sofa no escuro com as costas vulneráveis, o diretor falava e fazia ruídos e às vezes, o que era pior, simplesmente deixava que o silêncio me consumisse e me deixasse totalmente nervosa. É, eu tenho medo do escuro, hehehe.

Não falar era extremamente ruim, porque muitas vezes surgiam situações em que eu queria falar para não ter medo, gritar, xingar, e sabia que eu tinha que ficar quieta para experimentar essa sensação e não sair do jogo para a construção de uma personagem muda. Com certeza, não falar me incomodou muito nos ensaios e principalmente nas cenas que me deixavam assustada. Apesar de ter tido uma consequência boa, que foi anotar quase tudo que eu pensava ou sentia.



Kassandra conseguiu parte dos seus recursos através de financiamento coletivo. Você acompanhou o processo da campanha? Qual foi a sensação a ver que vocês tinham atingido a meta?


Desde que lançamos no site Catarse o nosso vídeo já deixei na barra de favoritos o link e diariamente eu olhava para ver como estava indo, e fui divulgando para algumas pessoas. Porém, na última semana eu comecei a me dar conta que não estávamos progredindo muito bem, então comecei a mandar e-mail para a minha família, amigos, amigos da família e pedindo para divulgarem para quem pudesse. E campanha no facebook direto também, é claro. Mandava mensagens para o Ulisses, feliz com o progresso dos últimos dias e, ao mesmo tempo, com medo de que não iríamos conseguir. Era frustrante pensar que poderia não dar certo. A sensação de atingir a meta foi quase igual a procurar seu nome no listão do vestibular e ver que esta lá. É muito bom.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Entrevista: Chico Pereira, compositor

Chico Pereira (à esquerda) gravando a música do filme junto com o engenheiro de som Roberto Coutinho (direita)



Versatilidade é uma das marcas mais visíveis (audíveis?) de Chico Pereira como músico. Ele compõe trilhas sonoras com a mesma facilidade com que faz solos de guitarra ou comanda uma mesa de gravação. 

Compositor, músico e produtor musical, em Kassandra ele teve um árduo trabalho, já que a música começou a ser discutida antes mesmo da primeira versão do roteiro estar pronta. Confira como foi feita a música do curta:

Uma das ideias mais primordiais de Kassandra foi que a trilha sonora fosse diferente, não caindo nos clichês do cinema de suspense e de horror. Como se faz uma trilha assim, sem se apegar aos cânones da música para filmes? 

Chico: Difícil. É muito tentador, não? Tem tanta música boa e bem feita para filmes deste gênero. Me peguei inúmeras vezes, enquanto compunha para Kassandra, homenageando sem querer meus compositores favoritos. É complicado compor para suspense e horror e não "roubar" alguma coisa de Bernard Herrmann, por exemplo. Caras como ele compuseram cânones por algum motivo. E este motivo é que estes compositores são, muitas vezes, a bússola do diretor e do espectador. Este certo poder do compositor de música para filmes é fascinante, ao mesmo tempo em que pode ser uma imensa e assustadora responsabilidade. 

Em certas fases do meu trabalho em Kassandra, precisei me afastar do trabalho por um ou dois dias e "limpar" minha percepção auditiva. Acho que isto me ajudou a chegar no que, acredito, não seja um resultado clichê. Não se trata de escutar e estudar os cânones com atenção e fazer tudo ao contrário. Se trata, sim, de tentar colocar alguns tipos de ideia em diferentes contextos: um timbre diferente, uma linha melodica inesperada, uma pausa onde se esperaria uma percussão.


Por sinal, o filme tem vários planos concebidos desde o início para que a música fosse o destaque. Como você vê a função da música nestes momentos? Como é a relação entre diretor / compositor para chegar a um bom resultado neste tipo de trabalho?

Chico: A música em um filme, mesmo quando está em destaque, está trabalhando para o filme. Isso é a primeira coisa que me vem na cabeça, mesmo que o diretor oriente que o seu trabalho seja o protagonista naquele momento. No caso de Kassandra, o que me fascinou foi a oportunidade de a música ser, literalmente, a voz de uma personagem que não consegue falar. Por isso, tive um cuidado extra ao compor temas e melodias, especialmente para a personagem principal. Como representar uma personagem tão cheia de camadas, tão dúbia? Me ative muito a este tipo de questão.

O papel do diretor em relação ao compositor em um trabalho assim é de um parceria pouco comum. O compositor não conseguiria fazer - falo por mim, principalmente - um trabalho tão focado se o diretor não estivesse quase compondo junto a música do filme. É um trabalho exaustivo, exige muito do psicológico, muito mais do que das habilidades musicais propriamente ditas. O apoio e a orientação do Ulisses foram essenciais neste caso.


Antes mesmo do curta começar a ser filmado, você já estava envolvido com a produção, fazendo uma seleção de referências musicais para serem ouvidos por elenco e equipe. Além disso, você inclusive estava no set, colocando música enquanto as cenas eram filmadas. Qual a importância do seu envolvimento desde esta etapa inicial?

Chico: Sinceramente, não conheço ainda outro método de trabalho. Em todos os filmes que trabalhei, estive no set, em tempo integral na maioria das vezes. Em Kassandra, eu precisava de algo mais do que ler o roteiro e assistir ao corte final do filme. Como já disse, eram camadas demais para representar com música. Difícil captar isso sem estar lá. Agradeço ao Ulisses pela sugestão e pelo privilégio de ver a atuação assombrosa da Renata in loco.

Ao mesmo tempo, gostaria muito de ter a experiência de trabalhar em um filme sem estar no set, trabalhar com um olhar mais de fora - coisa que deve ser concretizada em breve com um projeto novo que está por vir, Luz Natural.



Mixando os 33 canais de música gravados para Kassandra


Fale um pouco do processo de composição e gravação. Como você criou a música e que programas e instrumentos foram usados nas gravações? Junto com o engenheiro de som Roberto Coutinho, você elaborou uma música experimental durante as cenas de pesadelo do filme. Vocês usaram sons de piano tocados de trás para diante, correto?


Chico: Compus em casa, tudo em MIDI. Tocava as linhas de todos os instrumentos em um controlador - para quem nao conhece, é basicamente um teclado que dispara sons de bibliotecas de timbres que estao no computador. Alguns destes timbres que usei nas minhas demos foram usados - sons sintetizados disfarçados de timbres mais orgânicos, o que era uma das minhas propostas conceituais da música, esta mistura de real e irreal.
 
Porém a maioria dos meus sons originais foram substituídos no Ampli Studio, em um trabalho de pesquisa que fiz com o Roberto Coutinho. Só existem dois elementos totalmente orgânicos na música: a voz da cantora Mariele Giovanaz e o violino de Isadora Raymundo (ambas com performances perfeitas para o que precisávamos). Mas, seguindo o conceito proposto, estes dois elementos foram transformados e processados, para que transparecessem um aspecto mais etéreo e melancólico.
 
A questão dos sons de piano é interessante. Já havíamos gravado algo parecido em outro filme, Ninho dos Pequenos, mas em contexto absolutamente diverso. Toquei diretamente nas cordas do piano de parede que fica no Ampli Studio, usando meus dedos, palheta, escova de limpeza, arco de violino e chave de fenda para tirar diferentes sons e efeitos. Quando cheguei na sala técnica, depois de gravar estes sons, o Roberto havia invertido eles e isto casou muito bem com o clima surrealista das cenas de pesadelo. Ficamos realmente assustados com o resultado alcançado.


O primeiro curta no qual você e Roberto estiveram envolvidos na música, Onírico, é de 2003, e desde então vocês trabalharam juntos em várias ocasiões, inclusive em todos os curtas dirigidos por Ulisses da Motta Costa (O Gritador, Ninho dos Pequenos e o vídeo pedagógico Cecília e a Guerra dos Farrapos). Como é esta parceria?


Chico: O Roberto e o irmão dele, Daniel, são meus amigos mais antigos. Nos conhecemos há mais de vinte anos. Tocamos em bandas juntos, gravamos juntos e ainda convivemos bastante nas horas de folga. Então, nos conhecemos muito bem, o que facilita demais o nosso trabalho. Tenho orgulho de dizer que nunca precisamos brigar para fazer alguns belos trabalhos, não só nos filmes, mas também na publicidade e em outros trabalhos musicais. Além disso, graças a este cara consigo hoje gravar minhas músicas em casa, por exemplo. A maioria do que sei da parte mais técnica na área do som e de gravações, aprendi observando ele trabalhar. E o Roberto tem a calma e a concentraçao pra captar muitas coisas que quero fazer e às vezes nao sei como.

Daí, se juntarmos o Ulisses nessa história, "os 3 patetas" complementam seus talentos e conseguimos evoluir muito juntos. Espero que a gente possa seguir sempre nestas parcerias.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Entrevista: Alfredo Barros, montador


Montador premiado e requisitado, discípulo de Giba Assis Brasil, professor universitário: Alfredo Barros é um dos nomes ilustres a constar nos créditos de Kassandra. Nesta entrevista, ele revela os detalhes do processo de editar o curta-metragem -- e ainda dá uma aula sobre montagem de cinema:




Você aceitou o projeto por ser o primeiro filme de terror que lhe propuseram até então. Montar um filme de terror era o que você imaginava? Ou o desafio era bem diferente da sua expectativa?

Alfredo: Na verdade foi muito mais divertido do que eu imaginava. No início do processo de montagem, eu tive alguma dificuldade pra entrar no clima do filme, mas quando terminei o primeiro corte junto com o diretor, senti que tínhamos um filme aterrorizante. Kassandra me surpreendeu, cresceu muito na montagem e imagino que o som ainda me reserva muitas surpresas...

Além da questão do gênero, Kassandra ainda tem a característica de ser uma narrativa essencialmente visual. Como foi trabalhar com isso? No que era preciso ter atenção na hora de montar?

Alfredo: Eu não sei se concordo com essa coisa da narrativa essencialmente visual. Concordo que não são os diálogos que movem a história em Kassandra, e que o som assume a responsabilidade mais de criar clima do que de narrar. Eu sempre procuro resolver a narrativa a partir das imagens, e no Kassandra isso foi tranquilo de botar em prática, porque estava tudo lá, todos os planos que eu precisava estavam à disposição pra fazer a história andar, criar o ritmo adequado, etc. Como sempre, meu maior esforço em termos de atenção é para perceber as sutilezas de variações no acting.

Comente um pouco sobre a proposta de edição nas cenas dos pesadelos que a personagem tem. 

Alfredo: Essa coisa que a gente usou nos pesadelos é uma tentativa de imitar o que o Francis Ford Coppola fez no filme Drácula de Bram Stoker. Eu corto o plano a cada 2 ou 3 frames e depois deleto pedaços de 2 frames. A impressão é uma falha na filmagem, fica diferente de um fast foward normal. Eu inventei essa maluquice no filme do Hique Montanari, Fogo, e uso só de vez em quando porque dá uma trabalheira danada fazer esses cortes manualmente. Já tentei automatizar isso com o Automator, mas às vezes ele me estraga o timeline todo e eu tenho que voltar pro backup, então prefiro fazer na unha mesmo. Além desses cortes aleatórios, usamos uns "ratinhos" (frames pretos) nas passagens que também provocam um “efeito de defeito”. É uma forma de sujar o corte, criar uma textura, sei lá, é uma brincadeira que fica interessante de ver na tela.

A função de um montador é também ser uma espécie de primeiro espectador do filme, no sentido de quem primeiro vê as falhas que ele pode ter. O que você quis mudar em relação ao roteiro e como foi a receptividade do diretor com as suas ideias?

Alfredo: Bem, o Walter Murch,famoso montador nos EUA, diz que o montador é o ombudsman do público. Eu acredito nisso, pois, como eu não vou no set de filmagem, não tenho apego com o material filmado. Mas vai além disso. Quando eu comecei a montar o filme, tive dificuldade de entender a questão das cartas de Tarô que apareciam com frequencia, pontuando cada momento mais intenso da narrativa. Eu fiz questão de perguntar para o diretor o que significavam aquelas cartas no filme e se o significado das cartas era importante pra entender a história. Me dei conta de que se eu não estava entendendo nada, provavelmente o público também não entenderia.

A equação é simples: se era importante, precisava ser melhor resolvido para explicar para aqueles que, como eu, não sacavam nada de Tarô. Se não era tão importante, tínhamos que deixar claro pro espectador que ele não deveria perder tempo tentando interpretar isso. A questão é, se você faz um close em um objeto/signo cujo significado seja acessível apenas a um grupo seleto de espectadores, certamente vai deixar o resto todo curioso ou, pior, se sentindo ignorante, analfabeto.

Desde que aprendemos a ver filmes, sabemos que quando aparece um plano de detalhe de alguma coisa, significa que devemos prestar atenção porque aquilo vai ter alguma importância na história. Se for o plano de uma faca, sabemos que alguém vai usar ou já usou a tal faca e que isso vai ser determinante para o desenrolar da trama ou mesmo para a sua solução. Se a faca não for importante, pra que o plano detalhe? Tá, esqueça o patrocínio da Tramontina (risos), é melhor evitar planos detalhes de coisas que não significam nada ou quase nada no filme, sobretudo se forem cartas de tarô. Coloquei minhas ponderações sobre o assunto de forma bem mais sutil do que expus aqui, até porque era o primeiro filme com o Ulisses e não queria magoar o cara. Ele ouviu minhas súplicas, consultou o roteirista, que concordou com o meu ponto de vista. Como eram dois votos contra um, o Ulisses se convenceu e o tarô foi eliminado do filme.

Qual o elemento do filme que mais lhe impressionou?

Alfredo: O que mais me impressionou no filme foi a atuação do Leandro Lefa. Brilhante. E não estou sendo lisonjeiro, o Lefa é um grande ator no teatro, cinema, TV, etc. Sou fã do trabalho dele.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Entrevista: Ana Gusson, diretora de arte

Ana Gusson é uma jovem diretora de arte, mas já requisitada no mercado. Sua participação em Kassandra foi emendada antes e depois com variados projetos, incluindo o curta A Princesa e a Ervilha, realizado como parte do seu trabalho de conclusão em design pela ESPM Porto Alegre.

Confira como foi o trabalho da arte num filme preto-e-branco, repleto de elementos:




Qual o aspecto mais interessante que você vê em Kassandra? Especialmente na questão do conceito visual do filme?

Ana: Me admira a capacidade da história de transitar entre o sombrio e o delicado e inocente, de forma natural. Da mesma forma, o conceito visual do filme, centralizado no preto-e-branco, faz o mesmo movimento. Foi muito interessante trabalhar em torno dessa perspectiva. Um mesmo cenário/objeto, mostrado duas vezes, muda sua personalidade sem ter passado por uma transformação. Para que isso desse certo, direção, fotografia, arte, atuação, tudo teve que ser muito bem trabalhado e sintonizado.

Além disso, quando li no roteiro os objetos da história, sempre precisos, fizeram com que eu me apaixonasse pelo projeto. A história toda se conecta através deles, tanto na questão narrativa quanto na visual. Achei fascinante.

Qual era o maior desafio para a arte em Kassandra? Era o fato do filme ser em preto-e-branco?

Ana: Sim, o fator preto-e-branco foi um desafio e tanto. Geralmente, um dos maiores esforços da arte é a busca pela paleta de cores certa para cada filme, cada cena, cada sentimento. No caso de Kassandra, as cores deixaram de ser uma preocupação maior, para dar lugar às texturas e aos contrastes.

Trabalhar com preto e branco pode parecer muito fácil, quando na verdade é bastante complexo. Nem sempre as cores, quando transpassadas para os tons de cinza, reagem da forma como esperamos. O vermelho foi o nosso maior desafio, pois ao invés de se tornar um tom escuro e denso, virou um pobre e pálido cinza.

Ainda assim, acho que o maior desafio da arte de verdade foi tentar criar um conceito visual que refletisse a delicadeza e a fragilidade da personagem, sem negar o seu lado obscuro. O preto-e-branco foram extremamente cruciais pra construir essa imagem, mas tivemos de ter muita cautela pra não exagerar nos cenários ou peso visual dos objetos, de forma que eles não quebrassem a delicadeza e cair só no sombrio. 

Fale um pouco sobre a locação do filme: onde era, como foi trabalhar lá, as facilidades e dificuldades a respeito dela.

Ana: Trabalhar em locação não é fácil, todo o cuidado é pouco. Ainda mais tendo cenas com sangue, brigas e mortes (pode falar?) em meio a móveis e objetos emprestados (delicados, valiosos, frágeis, e a lista segue longe), cujos donos estão confiando no profissionalismo da equipe. Alguma coisa sempre acontece pra perturbar a paz. Se não é o sangue falso melequento escorrendo no sofá, é um tropeço no pé da mesa com tampo de vidro. Repito: todo cuidado é pouco! Haja produção de set pra segurar as pontas.

A nossa locação era ótima. Além de muito adequada às necessidades e ao conceito do filme, o espaço era amplo e muito do que havia no local foi utilizado na arte. Poucas foram as preocupações com relação à adaptação do apartamento. As dores de cabeça se concentraram mais no compromisso de manter o lugar em ordem da forma como nos foi emprestado.



Ana analisando o apartamento onde Kassandra foi filmado


Você estava recém-terminando sua graduação em design e assumiu a direção de arte de Kassandra. Como é ter essa responsabilidade assim, no início da carreira, junto com uma equipe que tem profissionais que estão há mais tempo no mercado?

Ana: Já havia trabalhado com o diretor Ulisses Costa e a equipe antes, mas em uma produção bem menor. A proposta de Kassandra era completamente diferente e bem mais desafiadora. Quando recebi o convite para participar da equipe de Kassandra como diretora de arte, confesso que duvidei no início, achei que fosse brincadeira (risos). Até achei que o Ulisses tinha se confundido e que eu ia ser assistente de arte. Isso sim parecia mais plausível. Mas quando percebi que a confusão era só da minha parte mesmo, não deu pra deixar de me sentir muito feliz, sinal de que gostaram do meu trabalho, né?

Li o roteiro e adorei, isso por si só me deu muita vontade de fazer um bom trabalho, estar em uma equipe repleta de profissionais competentes e mais experientes do que eu só me motivou a buscar um nível ainda mais alto. Além disso, as experiências anteriores dos outros membros da equipe me ajudaram e me ensinaram muito. Só tenho a agradecer por estar em meio à profissionais incríveis que me inspiraram e me apoiaram muito.

Você fez um curta-metragem para o seu trabalho de conclusão, A Princesa e a Ervilha, que também tem elementos de fantasia. O que você pôde aproveitar daquele projeto em Kassandra?

Ana: A Princesa e a Ervilha foi uma experiência e tanto, me ensinou muito sobre direção de arte e a realização audiovisual como um todo. Mas a atenção aos detalhes foi o que mais me marcou e que em seguida aproveitei em Kassandra. Ambas são histórias de suspense e suas narrativas são pontuadas por pequenos elementos determinantes ao destino dos personagens. Identificar e destacar esses elementos é o ponto de partida para a construção do visual do filme, esse “método”, digamos assim, me ajudou muito em Kassandra.

Durante o processo de crowdfunding, você foi uma das pessoas da equipe que mais divulgou e mobilizou pessoas para que a meta de arrecadação fosse atingida. Como foi a emoção deste processo e qual é a importância do financiamento coletivo para o projeto de Kassandra?

Ana: Foi muito emocionante ver meus familiares e amigos ajudando o projeto. Todos gostaram muito da proposta do filme e quiseram colaborar. E por mais contente que eu ficasse a cada contribuição, os próprios contribuintes é que eram os mais empolgados. Ver o envolvimento de pessoas queridas foi muito bacana, de verdade. O processo do. financiamento coletivo sempre esteve nos planos do curta, uma grande parte dos gastos seria coberta por ele. A maior evidência de que o sucesso do financiamento foi muitíssimo importante é que agora o lançamento de Kassandra já tá quase aí. ;)